Tus ideas cobran vida

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Um educador a bordo do JOIDES Resolution

Jueves, 12 de enero de 2012

Enquanto professor do ensino secundário tem sido para mim um privilegio
trabalhar lado a lado com uma equipe de cientistas e a tripulação do JR
durante a Expedição IODP 339: Mediterranean Outflow (
http://joidesresolution.org/node/2053). As minhas tarefas a bordo incluem actualizar as paginas do navio no Facebook e no Twitter descrevendo o trabalho realizado a bordo diariamente, mas não ficam por ai, pois também participo nos turnos de recolhas de amostras no “Core Lab” ajudando os cientistas.

Todavia, uma das facetas mais aliciantes do meu trabalho e a realização de videoconferências em directo a partir do navio para escolas, universidades e museus de ciência de todo o mundo. Durante cerca de 60 minutos quem esta em terra pode vislumbrar a magnífica torre de perfuração do navio, com os seus 62 metros acima da linha de água, e assistir em directo ao trabalho realizado a bordo do JR.

Miúdos e graúdos ficam ainda a saber como o navio mantém a sua posição durante as operações de perfuração do fundo mar através de uma visita a sala onde e feito o controlo do sistema de posicionamento dinâmico do navio (baseado no GPS e num sinalizador hidroacústico localizado no fundo do mar).

Alguns têm inclusive a sorte de assistir a chegada de um testemunho de sedimentos em directo! A partir da passadeira (ou catwalk) seguem o chamado “fluxo dos tarolos” ficando a conhecer o equipamento que permite determinar as propriedades físicas dos sedimentos; visitam ainda a sala onde os tarolos são cortados longitudinalmente e divididos em duas metades, bem como o seu percurso ao longo do laboratório. Ali os participantes podem testemunhar o trabalho efectuado pela equipe de sedimentólogos, bem como pelos especialistas em paleomagnetismo e pelos micropaleontólogos.

Fazemos ainda uma visita a um dos maiores laboratórios existentes a bordo do navio – o laboratório de geoquímica. Por fim, habitualmente, as emissões de video em directo realizadas a partir do navio costumam terminar com uma sessão de perguntas e respostas na sala de conferências do navio, onde todos os dias os cientistas se reúnem para discutir vários aspectos do trabalho realizado durante a expedição.

Helder Pereira. Professor do ensino secundário em Loule (Portugal).

Oito badaladas e 12 uvas a bordo do Joides

Miércoles, 4 de enero de 2012

Chegou o ano novo no Joides. Nós espanhóis já tínhamos pedido as uvas a Álex, o chefe do barco. Com nossas 12 uvas, bem contadas, saímos com todos os cientistas e membros da tripulação ao terraço, em frente à proa. Ali é onde está o sino do Joides. Até aqui tudo bem, todo mundo esperando as badaladas, os espanhóis com suas uvas, mas nos barcos somente se tocam oito badaladas e tínhamos doze uvas. É uma velha tradição marinha: na noite do Fim de Ano o mais velho dá quatro badaladas para despedir-se do Ano Velho, enquanto o mais jovem dá outras quatro para saudar o Novo Ano. Nesta ocasião, a honra foi correspondida a Ron, engenheiro chefe de perfuração, e a Satoshi, um jovem cientista japonês.

 

A tradição vem de vários séculos, quando o tempo de navegação era crucial para conhecer a posição e não se perder no Oceano. Um grumete ficava de guarda continuamente na frente de um relógio de areia, tarefa crucial para calcular os tempos e as rotas de navegação. Para tanto o grumete tinha a missão de virar o relógio cada vez que se esvaziava a areia da parte superior e isto acontecia a cada meia hora. Para assegurar-se de que o grumete não dormiria, este precisava tocar o sino todas as vezes em que virava o relógio, uma badalada na primeira meia hora, duas badaladas na segunda meia hora, e assim sucessivamente. Como se faziam turnos de quatro horas, ao fim de cada guarda tocavam-se oito badaladas para indicar a mudança de guarda. Dessa forma, conhecendo a velocidade do barco, era possível estimar a posição.

Esperamos que oito badaladas sejam suficientes para um feliz 2012, e que não nos percamos no oceano marítimo.

Francisco Javier Sierro. Universidade de Salamanca.

Uma espanhola na França e o presunto

Martes, 3 de enero de 2012

OIá!
Sou Palyfernanda, o sexto membro espanhol da expedição (me chamam paly porque sou aquela que identifica os grãos de pólem nos sedimentos dos testemunhos desta campanha).


Depois de mais de um mês de perfurações e sondas, aproveitando as festas de natal (como verão na primeira foto), o co-chefe da expedição, Francisco Javier Hernández Molina, recompensou-nos com um “presunto de jabugo”! Quanta honra e quanto prazer desfrutar deste manjar em meio ao Golfo de Cádiz, ainda mais para uma espanhola como eu que mora no exterior há mais de vinte anos.
A segunda foto revela bem as caras de felicidade do grupo espanhol rodeando e abraçando o presunto após cumprir minha tarefa de apresentar os resultados de nossa equipe de bioestratigrafia sobre o sitio U1388 localizado em frente de Cádiz.


Da esquerda para direita: Estefanía Llave, Paco Sierro, Francis Jiménez-Espejo, José Abel Flores, Francisco Hernández Molina com o dito cujo, e María Fernanda Sánchez Goñi.
Aproveito a ocasião para desejar a todos um Feliz Ano 2012.

María Fernanda Sánchez Goñi. Universidade de Burdeos (França).

Tempo linear e tempo cíclico

Miércoles, 28 de diciembre de 2011

Quando se abrem os testemunhos de sedimento, vêem-se capas. Algumas de barro e outras de areia, com limites nítidos ou difusos. Ao olhar mais de perto, percebe-se que a relação entre as capas repete-se ao longo dos milhões de anos. Muitos de meus colegas a bordo têm interesse em estudar estes ciclos. Saber como aumentam ou diminuem, e quais são as forças ocultas que os condicionam é, sem dúvida, muito relevante.

Em nossas vidas o tempo cíclico é algo a que estamos acostumados. Nos levantamos e dormimos todos os dias ajustando-nos aos ciclos solares, chamados dia e noite… e os ciclos estacionais condicionam nossas férias. Em uma vida normal, usufrui-se de 70 ou 80 ciclos estacionais. Isto é uma prova de que o tempo é cíclico… a vida são ciclos mais, ou menos, longos.

No testemunho aparecem, as vezes, capas com cores e características especiais. Mais verdes, com mais animais, ou mais duras do que o normal. Representam a memória de momentos únicos que por determinadas circunstâncias provocaram um depósito característico. São momentos únicos da história geológica. O registro geológico possui muitos eventos deste tipo, uma sucessão linear em que nada volta a ser o mesmo que antes.

Eu prefiro acontecimentos. Não sei o motivo, mas acho os ciclos cansativos. Estou aqui para estudar um evento muito cálido e excepcional que ocorreu há pouco mais de um milhão de anos. Gostaria também de estudar outros, mas minhas limitações físicas, intelectuais e orçamentarias me impedem.

Isto me lembra uma coisa… um evento que aconteceu há duas semanas… meu filho disse suas primeiras palavras: “TA-TA”. Esse fui um momento único. Para alguém como eu, que dá muita importância aos acontecimentos, perder um desta magnitude poderia desconsolar-me. Mas passado o susto, percebo que também estamos vivendo um momento único. Os melhores da ciência de muitos países trabalhando e vivendo juntos, em um ambiente único. Alguns esperavam há 30 anos por este momento, sem exagero.

Talvez viver cada momento como se fosse único e especial… e assumir que não podemos viver todos… seja um bom caminho para sentir-se feliz. Em todos casos, gosto mais de ver o tempo como linear, e saborear o que há de único em cada instante.

 

Francisco Jiménez-Espejo. Universidade de Granada (participando como

membro da equipe IODP d Japao).

Natal no Golfo de Cádiz

Miércoles, 28 de diciembre de 2011

Entre “core on deck, core on deck” (no meu turno diário é “coooooore on the floooooooor”) estamos nos preparativos do Natal. Já que todos sentimos falta de nossos entes queridos, temos que agradecer o esforço e o empenho da tripulação em fazer-nos passar estes dias natalinos da melhor maneira possível.

Estefanía Llave, del IGME, forma parte del coro de Navidad del Joides.

Para tanto, primeiramente organizou-se um Coral de Natal, e já há duas semanas estamos ensaiando diariamente um repertório de 7 canções natalinas. Uma delas, Noite de Feliz, será cantada em 7 idiomas diferentes: Inglês, Espanhol, Alemão, Francês, Vasco, Italiano, Coreano, Japonês, Filipino e Português. No coral temos três violões e a tripulação das Filipinas, que vive intensamente a música, fez uma bateria artesanal com um ótimo som.

Um companheiro espanhol trouxe a tradicional garrafa de “Anís del Mono”… mas não para bebê-la… porque está proibido tomar bebidas alcóolicas…. Não, não, somente para o acompanhamento musical. Decorou-se todo o barco, e no dia 25 de dezembro, além de cantar nos laboratórios, na ponte e no comedor, Papai Noel nos visitará e entregará presentes aos bem comportados. Também teremos teatro, jogos, karaokê e um jantar especial. Feliz Natal e Próspero Ano 2012!

Estefanía Llave. Instituto Geológico e Mineiro da Espanha (IGME).

A torre não pára no Natal

Martes, 27 de diciembre de 2011

Conforme se aproxima o ano novo percebemos mais distante a presença de nossas famílias. Não teremos nada especial nessa noite, parece que não é uma tradição nos Estados Unidos, nós espanhóis sentiremos falta. Por outro lado, no Natal haverá uma pequena comemoração entre uma e três da tarde, um grupo de companheiros, com alguns membros da tripulação do barco, ensaiam já há alguns dias e teremos um concerto de Natal e, suponho, comida especial. Também haverá presentes para todos. Em Ponta Delgada, antes de embarcar, pediram para que comprássemos um pequeno presente para distribuir no Natal. Yeoperson se encarrega de tudo, porque é a pessoa responsável pela administração a bordo e pelas publicações. Tudo estará salpicado com subidas ao laboratório, porque na torre continuam perfurando e alguém terá que se encarregar de que a cadeia de processamento de informação não pare.
Francisco Javier Sierro. Universidade de Salamanca.

A expedição e suas perguntas

Jueves, 22 de diciembre de 2011

A Expedição Científica “330 do IODP” está sendo desenvolvida desde novembro com o barco de perfuração JOIDES Resolution para buscar marcas das mudanças passadas no clima e na circulação oceânica sob o fundo marinho do Golfo de Cádiz e do oeste de Portugal.

O JOIDES Resolution (JR) é um dos barcos científicos de perfuração oceânica mais famosos. Tem cerca de 143 metros de distância de popa a proa e uma torre de perfuração com 62,5 metros de altura acima do nível do mar. O barco opera dentro do Programa Integrado de Perfuração Oceânica (Integrated Ocean Drilling Program, IODP), um dos programas de pesquisa marinha mais importantes do mundo. Na expedição já se realizaram duas perfurações na costa de Faro (Portugal) e atualmente o barco está perfurando a uns 50km diante da cidade de Cádiz, cerca de 105km do estreito de Gibraltar. Um total de 36 cientistas de 13 países diferentes estão pesquisando os últimos 6 milhões de anos da história da Terra nessa região, a oeste do Estreito de Gibraltar.

No Golfo de Cádiz circula atualmente uma massa de água quente e salina procedente do Mediterrâneo. Após sua saída pelo Estreito de Gibraltar, essa massa de água forma uma cachoeira submarina de cerca de 1.000 metros pelo talude continental para depois circular no Atlântico e atingir posições tão setentrionais como o Mar da Noruega. A saída desta massa de água representa um aporte de 300 milhões de toneladas de sal por dia ao sistema de circulação oceânica global, o que constitui o grande motor que, a partir das áreas polares, regula o clima terrestre global. A circulação desta massa de água é tão poderosa que chegou a criar uma extensa capa de areia de cerca de 100km de comprimento do Estreito a noroeste, a maior conhecida dos fundos marinhos até o momento. Ademais, gerou grandes vales erosivos submarinos e grandes acumulações de sedimentos.

Os resultados obtidos até agora são de grande interesse científico, e com eles a equipe científica a bordo do JR pretende responder perguntas tão importantes para nosso entendimento dos processos climáticos passados e presentes, como: Quando começou a sair a massa de água através do Estreito de Gibraltar? Como flutuou nos últimos milhões de anos? Quais foram os efeitos climáticos devidos ao aporte de grandes volumes de água quente e carregada de sal no Atlântico Norte? Qual é a espessura das capas de areia criadas pelas massas de água mediterrânea? Estas capas poderiam ser um novo objeto de interesse exploratório para o gás e o petróleo no futuro?

Javier Hernández Molina. Chefe Científico da Expediçao IODP 339.

Armazenando informação

Martes, 20 de diciembre de 2011

Todas as noites somos acompanhados por centenas de gaivotas que repousam tranqüilamente na água ao lado do barco, provavelmente esperando o carregamento de peixes que nunca chega. Outro dia comentávamos que devem estar um pouco frustradas porque pescamos pouco e pela baixa eficiência de nosso barco na arte da pesca. Há duas noites, no entanto, o espetáculo foi esplêndido, um grupo de golfinhos com barriga branca saltaram e nadaram durante mais de meia hora a estibordo, foi um momento de relaxamento no turbilhão da sonda.

 

Os últimos três dias foram intensos, analisou-se centenas de metros de sedimento, mediu-se, centímetro por centímetro, diferentes propriedades do mesmo, e a estas alturas toda a informação deve estar armazenada de forma segura nas bases de dados do “College Station” no Texas. Finalmente, chegamos ao nosso objetivo, 860 metros de profundidade abaixo do fundo marinho. Os últimos 200 metros foram apaixonantes, ainda que seja muito cedo para tirar conclusões, em nossas cabeças cozinham já idéias que agora deverão ser testadas de forma sólida, analisando o detalhe dos registros que acabamos de retirar, e provavelmente nos custará tempo construir uma teoria sólida que explique o que aconteceu no estreito de Gibraltar há 5,3 milhões de anos. No momento, estamos bastante certos de haver cruzados o nível na nossa sonda e de que uma mudança importante na sedimentação ocorreu nessa região do Golfo de Cádiz.

 

Ontem de tarde, na torre de perfuração, começou-se a injetar lodo para estabilizar as paredes do poço e nesta madrugada foram retirados os tubos do poço aberto no fundo para introduzir nele os instrumentos de “donwhole logging”, diagrafias de poço. Estes instrumentos medem “in situ”, ao descer lentamente pelas paredes do poço, as propriedades das capas de sedimento que são atravessadas. É como uma viajem no tempo que nos permite ler os arquivos que ficaram gravados nos sedimentos do fundo, ao descer lentamente. Eles nos dizem quando há uma capa de cascalho ou de argila, ou quando há um sedimento pelágico. Toda a informação vai sendo registrada em um computador de bordo, e deste é enviada diretamente, por satélite, ao Texas. Mede-se a velocidade do som, a radiação gamma emitida pelas paredes do poço e outras muitas propriedades. Esta informação logo é comparada com o que observamos nos sedimentos extraídos do poço. O último teste consiste em medir a velocidade das ondas p, utilizando-se para tanto pequenos canhões de ar comprimido submersos na água que emitem pequenas explosões. Mede-se o tempos que a onda leva para chegar em cada uma das capas que estão abaixo do fundo através de um sensor que desce pelo interior do poço.

 

Francisco Javier Sierro. Universidade de Salamanca.

Hump-day

Martes, 20 de diciembre de 2011

O significado desta palavra em um navio norte-americano é o dia em que se completa a metade da expedição. Dia 17 de dezembro foi esta data. Em pleno Golfo de Cádiz, logo após a terceira perfuração na qual foi possível atingir o tão “buscado” Mesiniense, enquanto se realizava a operação de “loging” (para obtenção de dados adicionais sobre a mesma perfuração, introduzindo nela instrumentos).

No Hump-day rompe-se a rotina dos turnos de trabalho. Uma hora antes da entrada do turno da noite e uma hora depois da saída do dia, faz-se uma festa. Porque, nesta barco, as três dezenas de cientistas e as duas de técnicos que os apóiam trabalham ininterruptamente das 12h da manha às 12h da noite, e vice-versa. A festa será realizada na sala de projeções, o pequeno cinema no qual, após a jornada, é possível desfrutar de algum filme, justamente em frente à academia, outro lugar freqüentado no tempo livre, e parece que haverá música para quem quiser e se atreva a dançar. O mar, as ondas, estão se comportando muito bem conosco até agora, e esperamos que amanha não se confundam os passos próprios do ritmo com os obrigatórios pelo bamboleio do barco.

Para refrescar o evento: o habitual a bordo, refrigerantes norte-americanos e suco de frutas (“concentrados”), batatas fritas, amendoins… O JR (apelido carinhoso do Joides Resolution) é um barco “drug and alcohol free”, o que se respeita com todo rigor. Desse modo, brindaremos, dançaremos e riremos com um desses copos inquebráveis que se usam por ali, cheio de algo de cor escura, com muito gelo, nada mais. E isso se aqueles que têm o turno da noite não resolverem madrugar e tomar como café da manha o que se acaba de narrar.

José Abel Flores. Universidade de Salamanca.

Quando a comporta de Gibraltar foi aberta

Martes, 13 de diciembre de 2011

Uma das primeiras coisas que se perde em um barco, depois de uma semana, é a noção de tempo. “Hoje é sábado, não?”, pergunta um companheiro. “Sim, acho que sim”, você responde, e para tanto pensa duas vezes. Trabalha-se todos os dias, e em alguns nem mesmo se sai à cobertura para ver o sol ou a lua, não se tem as cervejinhas das tardes de sábado ou o relaxamento do domingo que quebram a monotonia do passar do tempo. Ontem foi um dia difícil, a torre de perfuração não pára nunca, funciona 24 horas por dia. Somente em nosso turno das 12h da manhã às 12h da noite foram perfurados quase 300 metros e a cada 20 minutos um novo testemunho era coletado, o laboratório parecia um pista de corrida, tubos de ensaio, peneiras, porta-objetos, etiquetas, corridas ao microscópio e, de repente, outro “Core on deck” nos auto-falantes, o próximo testemunho está chegando, alguém tem que ir buscar a próxima amostra, tivemos apenas tempo para comer, sem nada de “tea time” ou “cookie time”. Além disso, ainda nos resta fazer o relatório da última sonda a ser apresentado hoje.

Mas não importa, ainda existe um otimismo generalizado entre os companheiros, esta sonda em particular desperta grande expectativa, porque o objetivo é perfurar nos próximos dias mais de 700 metros no corpo contornítico de Faro, é um volume de sedimentos que tem mais de 100 quilômetros de distância e uns 700 metros de espessura, estendendo-se ao longo do talude continental do Sul de Portugal. Foi formado pela acumulação de partículas transportadas pela corrente profunda do Mediterrâneo que passa através do estreito de Gibraltar. Esta corrente de água relativamente quente e muito salina, que de alguma maneira registra o que acontece dentro do Mediterrâneo, contorna o talude continental de Cádiz e o Algarve, para logo virar no cabo de San Vicente e dirigir-se ao Norte pelo talude continental de Portugal e Galicia. Nestes 700 metros de sonda poderemos pesquisar as mudanças das águas profundas do Mediterrâneo através do tempo, mas sobretudo queremos atingir a base do corpo contornítico, e isso é o que desperta mais expectativas. Por quê se formou o corpo contornítico? Está relacionado com a abertura do estreito de Gibraltar? Por quê o estreito de Gibraltar foi aberto? Quando aconteceu? Está relacionado com a inundação do Mediterrâneo há 5,33 milhões de anos? Estas são algumas das perguntas que talvez tenham respostas após esta campanha.

Há mais de 40 anos outra expedição do programa Ocean Drilling Program, então com o barco Glomar Challenger, descobriu a existência de imensos corpos de sal no fundo do Mediterrâneo cobertos por mais de 2 km de sedimento acumulado nos últimos 5 milhões de anos. Como resultado daquela expedição se propôs que o Mediterrâneo tinha secado há mais de 5 milhões de anos. A única explicação possível é que foi cortada sua conexão com o Atlântico. Na realidade, se agora construíssemos uma represa no estreito, o nível do mar Mediterrâneo descenderia um metro por ano. Em um milênio e meio o nível do mar poderia descender até 1.500 metros. O Mediterrâneo tem um déficit hidrológico importante, a água que chega todos os anos do mar Negro, do Nilo, do Ródano, do Ebro e de rios menores não é suficiente para compensar a água que se perde pela evaporação. Por este motivo uma corrente de água superficial se vê forçada a entrar do Atlântico para compensar a perda de água e manter o nível do Mediterrâneo no mesmo nível do Oceano, mas se a porta do Atlântico fosse fechada, o nível de água descenderia irremediavelmente. Isto é o que aconteceu há cerca de 5,56 milhões de anos, a porta atlântica fechou e o nível do Mediterrâneo baixou até 1.500 metros em pouco tempo, convertendo-se em um mar morto no qual a concentração de sal na água superou o limite de saturação do sal.

Nesta sonda esperamos alcançar em alguns dias a profundidade em que se encontram os sedimentos acumulados naquele momento, quando a porta Mediterrânea estava fechada e, assim, a água profunda mediterrânea não varria o talude continental de Cádiz. Poderemos explorar os dramáticos acontecimentos da história do Mediterrâneo durante a chamada crise de salinidade do Messiniense, uma das maiores catástrofes ambientais e biológicas dos últimos milhões de anos, e isto será possível de fora do Mediterrâneo.

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