Social Sciences Panama , Panamá, Monday, February 08 of 2010, 16:29

“A pesquisa científica em Coiba irá gerar informação e facilitará o manejo do parque”

Entrevista a Juan Maté, biólogo marinho panamenho e coordenador da elaboração do novo Plano de Manejo do Parque Nacional Coiba

Eva Aguilar/DICYT Considerado por cientistas e ambientalistas como um paraíso da biodiversidade, o Parque Nacional Coiba, localizado no Pacífico panamenho, conserva-se em estado primitivo graças à proteção militar e policial que durante 85 anos lhe outorgou seu status de presídio dos delinqüentes mais perigosos. Prevendo, no entanto, que uma vez que o presídio acabasse se acabaria também a proteção indireta que as matas e os recursos marinhos de Coíba recebiam até o momento, há uma década o grupo de organizações e instituições não-governamentais do Panamá e de outros países, assim como o próprio governo panamenho, começaram a árdua tarefa de pôr-se em acordo para dar ao arquipélago e suas imediações a proteção legal necessária para sua conservação.

 

Em 2004, Coiba recebeu legalmente seu status de parque nacional e, no ano seguinte, foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. Ademais, forma parte do Corredor Marinho de Conservação do Pacífico Tropical Leste, juntos com as ilhas Galápagos do Equador, a ilha Cocos da Costa Rica e as ilhas Malpelo e Gorgona da Colômbia. Em junho de 2009, a Autoridade Nacional do Ambiente do Panamá (ANAM) e o Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais (STRI) apresentaram o Plano de Manejo do Parque Nacional Coiba para os próximos cinco anos, um documento que permitirá desenvolver programas de conservação e projetos de pesquisa cientifica de forma sustentável na área protegida. O novo plano é produto da revisão e ampliação de um primeiro plano de manejo que foi elaborado em 1996 pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional (AECI), mas que não chegou a ser implementado.

 

DiCYT entrevistou a Juan Maté, assessor de assuntos costeiros marinhos do STRI e quem, desde 2006, dirige o processo de elaboração do novo plano. Maté, que há 20 anos está no ramo da pesquisa científica e trabalha junto aos esforços de conservação em Coiba, fala sobre o compromisso de fazer o plano deslanchar.

 

Quais foram as maiores dificuldades encontradas por você durante estes três anos de trabalho? Foi um longo trabalho. O período inicial era de 18 meses, mas decidimos mudar a dinâmica com relação à elaboração dos planos de manejo e esquematizar um processo inteiramente participativo. Não se tratava unicamente de ir às comunidades (que vivem próximas ao parque e dependem de seus recursos) e dar-lhes informação, mas sim que eles também nos transmitissem seus conhecimentos e pontos de vista. Por outra parte, a UNESCO nos deu 140 mil dólares para fazer o trabalho, mas tivemos solicitar financiamento adicional para poder terminá-lo. No final, o plano custou quase 320 mil dólares e trabalhou-se durante três anos, mas foi feito quase 60% a mais do que estava incluído na proposta original.

 

Por quê foram aumentados o orçamento e o tempo gasto e em que sentido? Porque foram verificados “buracos” de informação que tinham que ser preenchidos. O parque tinha uma valiosa informação cientifica, foram recopiladas mais de 400 publicações de revistas especializadas, mas ainda assim faltavam dados. O plano da AECI não havia identificado os aspectos relacionados à pesca devido a presença da presídio, que mantinha a pesca afastada. Com a inativação do presídio em 2004 o parque se abriu rapidamente à pesca e era necessário estabelecer uma normativa pesqueira. Foi gasto mais de um ano levantando informação cientifica primária, trabalhando com pescadores, e foi elaborado um plano de aproveitamento pesqueiro sustentável.

 

Se fosse possível classificar, entre 1 e 10, a informação cientifica sobre a ecologia do parque existente hoje, qual seria o seu valor? Eu diria que entre 4 e 5. Da parte marinha se sabe bastante, mas sobre a parte terrestre ainda existem muitos “buracos”.

 

Qual é o valor de Coiba como centro de pesquisa científica? O Golfo de Chiriquí, que é a área na qual se encontra Coiba, é o maior centro de diversidade marinha de todo o Pacífico Tropical Leste, isto é, desde o sul do México até o norte do Peru. Isso se deve às condições oceanográficas: as águas são quentes e existem condições estáveis de temperatura. Coiba é a maior ilha do Pacífico meso-americano e provavelmente a única com um impacto antropogênico mínimo, porque apesar de haver abrigado a um presídio por muito tempo, ainda possui 70% de sua mata primária. Portanto, há um potencial importante de conservação que implica o desenvolvimento de pesquisas, não só para gerar informação, mas também para facilitar o seu manejo.

 

Como a comunidade científica interessada em desenvolver estudos em Coíba é beneficiada pelo novo plano? A lei que criou o parque estabelece um comitê científico de apoio ao conselho diretivo e supervisiona as prioridades de pesquisa do parque. O plano, por sua parte, valoriza aquelas pesquisas que facilitem o manejo dos recursos, que são os que, ao final, permitem que o parque seja uma área protegida e que a UNESCO o considere patrimônio natural da humanidade. Mas ainda que sejam estabelecidas prioridades, as portas não estão fechadas para a pesquisa básica.

 

Quais são as áreas de pesquisa potenciais? Encontramos, por exemplo, que apesar de a ilha não possuir comunidades residentes, existe uma riqueza arqueológica importante e que este seria um novo campo aberto à pesquisa. Também existem pesquisas terrestres sobre os grupos endêmicos de Coíba como os “ñeques”, macacos e aves marinhas. A taxonomia e a identificação da diversidade marinha figuram também como pontos centrais do plano de manejo.

 

Quais são os planos para a nova estação científica que será instalada em “Playa Machete”? O objetivo de construir-se uma nova estação cientifica na ilha era para se ter um lugar próximo à terra firme, o que permite reduzir-se os custos de operação. É um projeto a longo-prazo que afortunadamente possui financiamento próprio, mas que provavelmente não estará pronto antes de um ano.

 

Que fatores ameaçam os planos de conservação de Coiba? A lei permite a prática pesqueira na área, mas existe um plano pesqueiro que dever ser implementado. Também existem planos em terra firme para o desenvolvimento de marinhas mercantes que vão gerar uma pressão muito forte no parque e que são ameaças potenciais porque contaminam e produzem ruídos. No entanto, a maior ameaça não vem de fora do parque, mas de dentro. Em Coiba ainda existem mais de duas mil cabeças de gado silvestres. Quando o presídio fechou, as vacas escaparam dos currais e, de fato, as únicas áreas ainda não-recuperadas são as que tem o gado. O gado pisa nos solos, destrói a vereda e provavelmente está gerando problemas com as espécies exóticas porque entra nas matas, além de ser um problema de segurança para o visitante. Portanto, o primeiro objetivo é tirar o gado do parque.

 

Como serão manejados o turismo e a presença de visitantes? Está sendo realizado um plano de usos públicos com financiamento adicional da UNESCO. Como território patrimonial, a UNESCO incentiva o ecoturismo na área, e por isso haverá um manejo de visitantes importante. Pois bem, o plano de manejo também procura que o parque seja auto-sustentável e isso não se consegue com os fundos do governo, mas através da cobrança de tarifas ou cotas que provêm dos visitantes, que devem ser bem ordenadas e dirigidas.

 

Qual é o nível de demanda que tem Coiba desde um ponto de vista turístico? Como parte do Corredor Marinho de Conservação do Pacífico Tropical Leste, já existem iniciativas turísticas que estão visitando os pontos do corredor a nível regional. Localmente, Coiba é a área protegida que recebe mais visitantes, entre sete mil e sete mil e quinhentas pessoas ao ano, e mais dinheiro, quase 250 mil dólares, apesar de estimar-se que poderia chegar a 13 milhões e meio de dólares ao ano, o que seria suficiente para alcançar sua sustentabilidade. A vantagem é que o plano de manejo foi aprovado antes que estas atividades comecem por completo.