Ciencia Portugal , Coimbra, Miércoles, 18 de marzo de 2015 a las 15:08
INESPO II

Aves marinhas, excelentes bioindicadores da saúde dos ecossistemas marinhos

Investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Universidade de Coimbra analisam o papel das aves nos recursos marinhos, com o objetivo de desenvolver ferramentas para a conservação dos oceanos

Cristina G. Pedraz/DICYT Um grupo de investigadores do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) ―um centro conjunto com pólos em seis universidades portuguesas, incluindo a de Coimbra― analisa o papel das aves marinhas nos ecossistemas marinhos, a fim de desenvolver ferramentas que contribuam para a gestão e conservação dos oceanos. Este grupo, dirigido pelo professor Jaime Ramos, utiliza as aves marinhas como modelo de estudo pois o acesso a estes animais é relativamente mais fácil quando comparado com outros grupos, como peixes ou baleias.

 

A utilização das aves marinhas tem inúmeras vantagens, tanto para validar teorias quanto para aplicações de gestão práticas e imediatas. Para isso, o grupo utiliza a mais recente tecnologia, como dispositivos GPS e análise de isótopos estáveis, para verificar onde vão as aves alimentar-se e o que comem. Isso permite monitorizar a saúde dos ecossistemas marinhos e as suas mudanças ao longo do tempo devido, por exemplo, a fatores ambientais como a mudança do clima ou a sobrepesca.

 

Um dos investigadores do grupo, Filipe Rafael Ceia, explica que as aves marinhas “são, talvez, de entre os grandes predadores marinhos os mais acessíveis, pois não estão constantemente na água como os peixes e além disso têm de ir necessariamente a terra para se reproduzirem, o que facilita muito o seu estudo”; e também “podem cobrir grandes áreas do mar na procura de alimento em um tempo relativamente curto, constituindo excelentes ferramentas de amostragem”.

 

Aliás, as aves marinhas são consideradas espécies “guarda-chuva”, ou seja, para proteger certas espécies é também necessário conservar os recursos dos quais dependem, geralmente diversas espécies que estão mais abaixo na cadeia alimentar, como peixes, lulas ou crustáceos, e dos quais também o homem depende em grande medida.

 

“As aves marinhas oferecem-nos boas pistas sobre a saúde dos recursos marinhos que tanto elas como nós dependemos. Face aos grandes desafios que enfrentamos hoje, como as alterações climáticas ou a sobrepesca, as aves marinhas podem ajudar a entender melhor o que está a acontecer nos oceanos, uma vez que são elas, primeiro que nós, a sentir os efeitos de tais consequências”, explica.

 

Especialização individual

 

Desde 2010, e como parte da sua tese de doutoramento, Filipe Ceia estuda as aves marinhas como bioindicadores. O seu trabalho de doutoramento baseou-se na investigação dessas aves ao nível do indivíduo para determinar preferências individuais e a consequente especialização na exploração dos recursos.

 

“Ao estudarmos a ecologia alimentar das aves, podemos compreender melhor os efeitos da mudança do clima ou a sobrepesca nos recursos marinhos e minimizar o seu impacto através de uma boa gestão. Por meio de dispositivos GPS e da análise de isótopos estáveis, examinamos cuidadosamente ocomportamento das aves e a sua dieta, seguindo pormenorizadamente as suas viagens em busca de alimento no mar, averiguando onde e o que comem, e em que proporções” indica o investigador.

 

Assim, na sua tese de doutoramento o investigador desenvolveu a teoria da existência de uma especialização individual em várias espécies de aves marinhas, como albatrozes, pardelas e gaivotas. Segundo esta aproximação, os indivíduos de uma população podem se especializar em determinados recursos e ter preferências individuais na dieta e nos lugares onde se vão alimentar.

 

“O mesmo acontece com as pessoas, ou seja, nem toda a gente gosta de peixe, nem toda a gente gosta de carne; e há pessoas que gostam de ir às compras aos centros comerciais, enquanto outras preferem o pequeno comércio. Estes resultados têm fortes implicações para a conservação dos oceanos, permitindo melhorar as ferramentas de gestão. Por exemplo, ajudam a gerir os recursos pesqueiros de forma mais sustentável e a identificar áreas de maior biodiversidade e, portanto, susceptíveis de serem transformadas em áreas marinhas protegidas”, conclui.

 

Próximos passos

 

Atualmente, o grupo de investigação está envolvido num projeto onde as aves marinhas são usadas como “amostradores” naturais do oceano, com o objetivo de preparar um mapa isotópico da superfície do Oceano Atlântico. O objetivo é que, no futuro, este mapa permita seguir e localizar não só as aves marinhas, mas potencialmente todos os animais marinhos, com uma única amostragem. Ou seja, “com uma simples análise de isótopos estáveis, por exemplo, de uma sardinha, será possível conhecer a área onde estava a se alimentar antes e, portanto, elaborar rotas de migração e áreas de alimentação que permitam uma gestão muito mais eficiente dos recursos marinhos”.

 

 

 

Referências bibliográficas:

Ceia, F. R., Paiva, V. H., Ceia, R. S., Hervías, S., Garthe, S., Marques, J.C., Ramos, J. A. (2015) “Spatial foraging segregation by close neighbours of a highly mobile seabird species”. Oecologia, 177: 431-440.

 

Ceia, F. R., Paiva, V. H., Garthe, S., Marques, J. C., Ramos, J. A. (2014) “Can variations in the spatial distribution at sea and isotopic niche width be associated with consistency in the isotopic niche of a pelagic seabird species?” Marine Biology, 161: 1861-1872.

 

Ceia, F. R., Paiva, V. H., Fidalgo, V., Morais, L., Baeta, A., Crisóstomo, P., Mourato, E., Garthe, S., Marques, J. C., Ramos, J. A. (2014) “Annual and seasonal consistency in the feeding ecology of an opportunistic species, the yellow-legged gull (Larus michahellis)”. Marine Ecology Progress Series, 497: 273-284.