Bruna Azevedo/ComCiência/Labjor/DICYT A ciência atualmente tem um papel de grande importância para os avanços tecnológicos que levam a uma melhoria da qualidade de vida, principalmente no campo da saúde. São milhões de profissionais que passam dias dedicando-se integralmente às pesquisas e, ao encontrar uma nova possibilidade, correm para seus laboratórios para testar suas hipóteses e garantir uma nova descoberta que irá revolucionar ou desvendar algum grande mistério... Por acaso essa foi a imagem que se formou em sua cabeça? Pois é, esse rascunho da ideia de cientista tornou-se algo comum. Em artigo, o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Bernardo Jefferson de Oliveira, mostra que o mundo científico - e principalmente seu profissional - estão, cada vez mais, estereotipados por uma visão que distorce a realidade. Além disso, essa distorção seria funcional e traria vantagens a uma parte dos cientistas.
Em seus estudo, Oliveira analisou diversos filmes que tinham o cientista como seu personagem principal ou em que estava diretamente relacionado à trama do longa. Segundo ele, o cinema tornou-se uma ferramenta de aprendizado e difusão de novas experiências e valores culturais. "A vivacidade das imagens e sua reprodutividade facilitaram sua aceitação como pura representação da realidade", afirma em seu artigo “Cinema e imaginário científico”, publicado na revista História, Ciências, Saúde.
Com o meio científico sendo projetado não somente em filmes de ficção científica como também em dramas, aventuras, comédias e suspenses, longas como De volta para o futuro, O óleo de Lorenzo, Uma mente brilhante, O aviador, 1984 e os da série Indiana Jones – parte da amostra analisada - tornam-se parte do aprendizado sobre ciência. Porém, muitas vezes com um viés equivocado. "O fantástico que vem à tela deve ser ao menos admissível da perspectiva científica, como se tudo que parece misterioso tivesse uma explicação racional", ressalta.
Além disso, Oliveira explica que os esteriótipos formados, tanto pelo cinema como pela mídia em geral, são reflexo dos hábitos culturais de uma sociedade e aponta cinco imagens que podem ser facilmente destacadas tanto por personagens cinematográficos como na programação da televisão: o cientista diabólico que pretende mudar o mundo; o professor que, mesmo bem intencionado e ingênuo, perde o controle sob seu experimento; o herói aventureiro que se arrisca, à todo custo, para desvendar cientificamente os enigmas mais misteriosos; o cientista idealista que salvará a humanidade; e, por fim, o cientista genial e atrapalhado, com desequilíbrios emocionais, mas que inventa as mais fascinantes engenhocas.
Mesmo sendo representado como um profissional que vive isolado da sociedade em seu laboratório, alguns cientistas não julgam isso como uma desvantagem. "Há aspectos dessa imagem estereotipada que eles não têm interesse em desfazer, como a noção de que seriam pessoas inteiramente devotadas à descoberta da verdade. Isso porque, mesmo que essa não seja uma imagem fiel, tem conotação positiva", aponta.
Como consequência dessa visão pouco precisa, a relação do público com o meio científico torna-se distante e envolta de mitos, já que o conhecimento da sociedade sobre a ciência, como um todo, é apenas básico e superficial, se comparado à diversidade e complexidade do que pretende explicar.
Por outro lado, o interesse das pessoas pela ciência aumenta gradativamente à medida que se descobre mais sobre ela. “A meu ver, nunca se teve muita clareza sobre as relações entre ciência e técnica e, se a curiosidade não chega até a busca da compreensão dos raciocínios envolvidos nas pesquisas, ela visivelmente mobiliza crianças e adultos nas indagações sobre as possibilidades da ciência", conclui.