Ciencia Portugal , Coimbra, Martes, 12 de mayo de 2015 a las 16:10
INESPO II

Investigam como afetam os fatores de stress à síntese de ácidos gordos nas espécies aquáticas

Cientistas do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), Universidade de Coimbra, e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), Universidade de Aveiro, analisam o efeito dos fatores ambientais e antropogénicos de ‘stress’

Cristina G. Pedraz/DICYT Um grupo de cientistas do Centro de Ciências Marinhas e do Ambiente (MARE) ―um centro conjunto com pólos em seis universidades portuguesas, incluindo a de Coimbra e o Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), da Universidade de Aveiro― investiga o efeito de fatores de stress ambientais e antropogénicos nos processos bioquímicos de espécies aquáticas ao longo da cadeia alimentar. Isto permite extrapolar os impactos sobre as cadeias tróficas e sobre a qualidade alimentar de algumas espécies. Algumas destas espécies têm alto valor económico para os seres humanos, uma vez que são parte do seu alimento.


Como expõe uma das investigadoras, Ana Marta Gonçalves, a mudança climática global é em grande parte causada pelo homem e pode afetar as comunidades aquáticas, e, consequentemente, os ecossistemas e recursos que há nelas.


“Nas últimas décadas temos vivido uma intensa exploração das terras agrícolas, principalmente nos países da região do Mediterrâneo, o que ocasiona um uso excessivo de fertilizantes e pesticidas que têm efeitos adversos sobre os sistemas aquáticos ao seu redor e sobre as suas comunidades biológicas”, explica a investigadora. Em alguns casos, o uso destes produtos excede os limites fixados pela União Europeia, o que obriga à prática de programas de vigilância como o implementado no estuário do rio Mondego, nas proximidades de Figueira da Foz (Portugal).


“Este sistema estuarino, como outros sistemas costeiros localizados perto de áreas agrícolas, está sujeito a descargas das áreas circundantes, o que poderia pôr em risco as comunidades aquáticas. Portanto, é importante analisar os efeitos desses fatores de stress não só nos parâmetros de população de espécies (como a reprodução, o número de descendentes ou a taxa de crescimento), mas também ao nível de metabolismo, por exemplo, na síntese de ácidos gordos (FA, por sua sigla em inglês), que são muito sensíveis a fatores ambientais e poluentes”, acrescenta.

 

Neste sentido, Ana Marta Gonçalves especifica que há vários grupos de ácidos gordos, incluindo os chamados ácidos gordos essenciais (EFA, por sua sigla em inglês), como ómega 3 e ómega 6, presentes em peixes, que se obtêm apenas com a dieta das pessoas ―há organismos capazes de sintetizar, mas em quantidades muito baixas, sendo pouco compensatório o gasto de energia na produção―, e são fundamentais na prevenção e tratamento de certas doenças, como alguns tipos de cancro, doenças cardiovasculares ou doenças autoimunes. “Por isso, é essencial entender como os fatores de stress afetam esses organismos que estão na base da cadeia alimentar, já que o seu impacto pode ser observado em toda a cadeia, afetando em última instância também os seres humanos”, sublinha.


Diferenças na síntese de ácidos gordos


O grupo de investigadores dos centros MARE e CESAM está a estudar diversas espécies de diferentes níveis tróficos: microalgas, macrófitas, zooplâncton, bentos e peixes de água doce e de mar, para entender como é afetada a síntese de ácidos gordos ao longo da cadeia alimentar e se existem diferenças entre a resposta das espécies dos ambientes marinhos e de água doce.


Trabalham há vários anos com estas espécies de diferentes níveis tróficos, expondo-as a condições de stress (naturais e antropogénicas), com apenas um fator de stress ou vários em combinação. “O desenvolvimento do desenho experimental de qualquer experiência deste tipo requer muito tempo, além da aclimatação destas espécies às condições de laboratório”, comenta.


Os resultados obtidos até hoje “são muito interessantes porque revelam que as espécies estudadas mostram uma redução significativa no perfil de ácidos gordos na presença de determinados fatores de stress, pelo que são menos nutritivas em comparação com os organismos utilizados como controlo”. Aliás, algumas espécies “conseguem recuperar-se, dentro de certos limites, e retornar ao seu estado inicial após à exposição a fatores de stress”, refere a investigadora.


Mudança do clima, um fator a considerar


Entre os fatores de stress que podem condicionar a síntese de ácidos gordos na cadeia alimentar destas espécies aquáticas está a mudança do clima. De acordo com a cientista do MARE-CESAM, “os ácidos gordos são moléculas muito sensíveis aos fatores ambientais e poluentes. Uma redução na síntese de ácidos gordos (particularmente, dos ácidos gordos essenciais), pode causar alterações no perfil ou apenas na quantidade de ácidos gordos, tornando as espécies menos nutritivas. Aliás, sabe-se que, quando submetido a condições de stress, o corpo também diminui as suas funções metabólicas para reduzir a demanda de energia”.


No entanto, ainda há tempo para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre estas espécies aquáticas, mas para isto precisa-se do “apoio do governo e da própria sociedade para minimizar a ação antropogénica que em grande parte provoca as alterações ambientais globais”. E, além disso, “o estabelecimento de novos limites no uso de poluentes para não interferirem com a síntese metabólica dos organismos e, portanto, com o seu valor nutricional”. Deste modo, um dos próximos passos nesta linha de investigação incidirá sobre o estabelecimento dos limites a partir de modelos toxicológicos.

 

 

Titulo del cuadro de apoyo
Neves, M., Castro, B. B., Vidal, T., Vieira, R., Marques, J. C., Coutinho, J. A. P., Gonçalves, F., Gonçalves, A. M. M. (2015). “Biochemical and populational responses of an aquatic bioindicator species, Daphnia longispina, to a commercial formulation of a herbicide (Primextra® Gold TZ) and its active ingredient (S-metolachlor)”. Ecological Indicators. (DOI: 10.1016/j.ecolind.2015.01.031)