Ciencia Brasil Campinas, São Paulo, Jueves, 01 de septiembre de 2016 a las 12:14

Livro aborda caminhos para indicador de cultura científica

Além dos discursos, a obra traz ainda panorama histórico sobre os indicadores de C&T e de percepção, assim como seus objetivos, desafios, resultados e tendências

Patricia Santos/ComCiência/Labjor/DICYT O desenvolvimento em ciência e tecnologia (C&T) está entre os principais objetivos das maiores economias do mundo e os indicadores são meios para monitorar esses avanços. Os países podem medir, por exemplo, o investimento em pesquisa e desenvolvimento, o número de patentes, os recursos humanos que atuam no setor, entre outros aspectos, e assim direcionar investimentos e políticas públicas. Também por meio de indicadores, analisa-se como o público percebe os temas de C&T. Outra medição que poderá contribuir para o setor é a de cultura científica, indicador que vem sendo discutido entre pesquisadores da área.


Caminhos para elaborar o novo indicador estão em análise no livro lançado em abril, O discurso dos indicadores de C&T e de percepção de C&T, coeditado pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e pela editora Catarata. Os autores são Carlos Vogt, coordenador do Labjor/Unicamp, onde é professor emérito, além de ser presidente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp); e Ana Paula Morales, pesquisadora associada do Labjor/Unicamp, doutoranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT/Unicamp) e assessora de comunicação da Univesp.

 

Segundo Vogt e Morales, a cultura científica é o ponto em que a sociedade e a ciência se encontram. As ações de divulgação permitem essa intersecção enquanto os estudos da percepção do público observam como se dá essa relação. Por meio de enquetes de opinião pública, essas pesquisas mensuram o grau de interesse, de informação, as atitudes e a apropriação das questões científicas e tecnológicas pela população.


Nessa perspectiva, o livro parte da definição de cultura pela antropologia, depois passa à discussão sobre o que é a ciência. Em seguida, aborda como se estabelecem as dinâmicas em que a ciência e a cultura se inter-relacionam na sociedade. De acordo com os autores, essas ações se dão pela linguagem, no modelo lógico da “espiral da cultura científica”, de Carlos Vogt. Nela, a linguagem científica – mais codificada e objetiva – passa por diferentes atividades de comunicação e de ensino e se transforma, ou seja, torna-se linguagem subjetiva e metafórica ampliando o alcance da ciência na sociedade.


“A questão não é apenas se a ciência pertence à cultura, claro que sim, como qualquer forma de conhecimento pertence à cultura. Após a Segunda Guerra Mundial quando a ciência passa a ser vivenciada no cotidiano das pessoas e a estruturar relações básicas como o trabalho, vai num crescendo tal até atingir o estado que hoje conhecemos como sociedade do conhecimento, economia global e assim por diante. O assunto da percepção tem muito a ver com essa mudança”, explica Vogt.


Assim, as percepções da população sobre a ciência sinalizam a amplitude da cultura científica nas sociedades. “O interesse, os anseios e também o envolvimento da população em relação a temas científicos e tecnológicos podem ser identificados e acompanhados por meio de pesquisas de opinião pública e dos chamados indicadores de percepção de C&T”, comenta Morales.


Segundo explicam os autores, conhecer o estado dessa relação entre ciência e sociedade permite apontar caminhos para a participação do público, por exemplo, na definição de prioridades para o setor, no debate sobre as implicações éticas e sociais da ciência, e outros aspectos.


O livro traz ainda um panorama histórico sobre os indicadores de C&T e de percepção, assim como seus objetivos, desafios, resultados e tendências. Essa seção acrescenta elementos para a análise final, que enfoca o discurso presente nesses medidores.


Os enunciados dos indicadores de C&T são descritivos, indicando, por exemplo, o número de patentes, de investimentos e recursos humanos em C&T. Já os parâmetros de percepção da C&T são subjetivos, com questões como o interesse por notícias de C&T, conhecimento sobre instituições científicas entre outras.


A partir disso, Vogt e Morales analisam esses enunciados como base para novos parâmetros de mensuração da cultura científica. Para o indicador de cultura científica (ICS), os autores propõem, então, um modelo lógico, com referência na antropologia, em que, de um lado, estão os indicadores objetivos de C&T e, de outro, os parâmetros subjetivos de percepção. Eles estão em oposição ao mesmo tempo em que se complementam em seus propósitos: um conceito não existe sem o outro, mas um é diferente do outro.


O livro acrescenta aos estudos que vêm sendo feitos por outros pesquisadores para propor o ICS e é, além disso, uma reflexão aprofundada sobre a importância da cultura científica e os atuais balizadores para monitorar a C&T.