Ciencia Portugal , Castelo Branco, Lunes, 20 de abril de 2015 a las 14:10
INESPO II

Mais de 28% das crianças expostas a fumo de tabaco no carro

Investigação da Universidade da Beira Interior indica que crianças portuguesas de nove anos com pais fumadores sofrem cinco vezes mais exposição ao fumo dos cigarros no carro

José Pichel Andrés/DICYT Um vasto estudo realizado pela Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, em Covilhã, em colaboração com a Universidade do Minho, em Braga, indica que mais de 28% das crianças portuguesas de nove anos estão expostas ao fumo do tabaco quando viajam de carro. Os especialistas chamam a atenção para este problema, que é particularmente grave por quando se trata de crianças que inalam substâncias tóxicas em um espaço fechado e, por isso, recomendam adotar medidas.

 

O estudo foi realizado com 3.187 crianças do quarto ano do Ensino Básico, que têm cerca de nove anos. Delas, 28,9% é exposto ao fumo do tabaco no carro, de acordo com os resultados publicados na revista Gaceta Sanitaria. Em 52% dos casos, pelo menos um dos pais é fumante e a diferença entre estas crianças e aquelas com pais não-fumantes é muito significativa. 46,9% dos primeiros respira o fumo dos cigarros no carro, em comparação com 8,6% dos segundos.

 

Paulo Vitória, investigador da Universidade da Beira Interior e um dos autores deste trabalho, adverte que “o fumo é sempre perigoso para os seres humanos, mas esse risco é mais grave no caso das crianças, que são mais vulneráveis”, afirma em declarações a DiCYT. Em sua opinião, o perigo é agravado quando o fumo fica concentrado em um pequeno espaço, mas deve-se considerar também que “o fumo deposita-se nas roupas e na superfície dos carros; aliás, os materiais utilizados em estofados e revestimentos interiores dos automóveis são propensos à retenção de substâncias perigosas”.

 

O fumo do tabaco contém gases e micropartículas incluindo nicotina e vários compostos tóxicos, alguns deles cancerígenos. Para as crianças é mais perigoso por causa da imaturidade do seu sistema respiratório. Se comparado com os adultos, as suas inalações são mais frequentes e mais profundas, como explica o especialista. Portanto, a exposição ao fumo dos cigarros está associada com doenças como asma, bronquite e pneumonia, além de tosse e sibilo ou pieira.

 

“A principal fonte de fumo ambiental do tabaco são os cigarros dos pais e só podemos compreender que submetam as crianças a esse perigo por ignorância”, opina Paulo Vitória. À vista disso, reivindica mais informação para a população, considerando especialmente que a ignorância muitas vezes está relacionada com as desigualdades socioeconómicas, de modo que às consequências sanitárias deste problema acrescentam-se a outras circunstâncias que sofrem os mais desfavorecidos.

 

Permissividade

 

Uma elevada percentagem de crianças cujos pais não fumam também estão expostos ao tabaco no carro por parte de outros familiares ou amigos, mas geralmente os pais que fumam são os mais permissivos com o fumo de outros. Além disso, os autores do estudo também advertiram uma clara relação entre a exposição no carro, em casa e em espaços públicos.

 

“Os pais teriam de ser mais proativos na proteção dos seus filhos”, afirma o investigador, que espera poder repetir este estudo com crianças de outras idades para os resultados serem mais consistentes.

 

Paulo Vitória conclui alegando que “a gravidade dos riscos e a evidência de que a exposição das crianças é muito importante fazem com que a situação se torne inaceitável”. Portanto, a sua recomendação passa por que as autoridades proíbam fumar nos carros e que esta proibição seja reforçada se houver menores a viajar nos automóveis.

 

Referência bibliográfica 

 

Portuguese children’s exposure to second-hand tobacco smoke in the family car. Vitoria, Paulo D; Machado, Jose Cunha; Ravara, Sofia B; Araujo, Ana Carolina; Samorinha, Catarina; Antunes, Henedina; Rosas, Manuel; Becona, Elisardo; Precioso, Jose. Gaceta Sanitaria/ S.E.S.P.A.S, Vol: 29 Num: 2, 131 -4. DOI: 10.1016/j.gaceta.2014.10.011