Health Spain , Burgos, Wednesday, November 30 of 2011, 12:14

Mecanismo de ação antes desconhecido é revelado em um novo remédio contra o câncer

O obatoclax oferece resultados promissores para o tratamento de distintos tumores

RAG/DICYT O obatoclax é um remédio promissor para o tratamento de distintos tipos de câncer que está dando bons resultados. No entanto, não se conhece muito bem o mecanismo pelo qual funciona. Uma pesquisa desenvolvida no Departamento de Química da Universidade de Burgos (UBU) demonstrou a capacidade deste medicamento para transportar ânions - íons de carga negativa - através de membranas lipídicas. Este fato é importante, pois elimina as variações de pH no interior da célula. E, uma vez possível, demonstrou-se que dá início a um processo de morte celular programada, isso é, de apoptose.

 

Os ânions são íons carregados negativamente e os mais abundantes em meios fisiológicos são o cloreto e o bicarbonato. Estes ânions são “muito importantes”, pois o bicarbonato está envolvido em processos como a respiração celular ou a manutenção do pH da célula. O cloreto, por sua vez, contribui para a manutenção do gradiente (variação) eletroquímico necessário às membranas, explicou a DiCYT Roberto Quesada, um dos pesquisadores autores do estudo.

 

Devido a sua natureza, estes ânions não podem ser difundidos através das membranas celulares. “Os ânions são partículas carregadas, de modo que não podem atravessar de forma passiva as membranas lipídicas. Então, as células têm uma série de mecanismos para controlar o transporte de ânions, geralmente proteínas de membrana”, afirmou.

 

Desaparição do gradiente de pH

 

O transporte de ânions através das membranas lipídicas faz com que sejam destruídos alguns gradientes de pH existentes no interior das células. Dentro destas existem orgânulos celulares mais ácidos (e, portanto, com diferente pH) que o citosol, isso é, que o meio aquoso que há dentro dela. O transporte de bicarbonato e cloreto elimina estes gradientes, estas diferenças, o que desencadeia um processo que culmina na morte celular programada, benéfica no tratamento contra o câncer. “Nós comprovamos que a desaparição está relacionada com o início de uma cascata de processos que origina a apoptose, a morte celular programada”, afirma.

 

Neste estudo foram preparados, ademais, compostos semelhantes ao obatoclax nos quais a capacidade para transportar ânions foi alterada, e comprovou-se que a citotoxidade (capacidade para interagir com outras células e destruí-las) dos mesmos apresenta uma boa correlação com a atividade como transportadores.

 

Do mesmo modo, os pesquisadores comprovaram que compostos muito semelhantes do ponto de vista estrutural com o obatoclax, mas incapazes de promover o transporte de ânions, não são efetivos.

 

Os dois cânceres de pulmão mais freqüentes são os denominados “de pequenas células” e “de não-pequenas células”. O segundo é mais comum, no entanto, o primeiro apresenta um maior índice de mortalidade. Para esta doença, o obatoclax já está em fase clínica avançada, de modo que espera-se que seja comercializado em um período de tempo relativamente curto. O medicamento está sendo desenvolvido pela multinacional farmacêutica Cephalon e também testado em outros tipos de cânceres, ainda que para estes a fase de pesquisa ainda esteja atrasada.

 

Novas vias

 

Este estudo abre a porta ao desenvolvimento de novas moléculas com potencial ação anti-cancerígena baseadas neste modelo de transporte de ânions. “Pensamos que este mecanismo, sendo importante para desencadear esta série de processos que originam a apoptose, pode ser replicado por outro tipo de moléculas que exerçam esta função, o transporte de ânions, ainda que não tenham uma relação estrutural com o obatoclax. Isso é, pode ser uma via a ser utilizada para desenvolver novos compostos com estas propriedades anti-cancerígenas, baseando-nos no desenvolvimento de compostos com esta capacidade de transportar ânions”, expôs o pesquisador.

 

Publicado na semana passada na revista científica Chemistry - A European Journal, o estudo foi realizado em colaboração com pesquisadores da Universidade de Barcelona, da Universidade das ilhas Baleares e da Universidade de Southampton, do Reino Unido.