Ciencia Portugal , Coimbra, Martes, 03 de marzo de 2015 a las 15:48
INESPO II

O aumento na concentração de nutrientes dissolvidos estimula a decomposição da detritos vegetais em ribeiros

Pesquisadores de Portugal, França, Reino Unido e Estados Unidos publicaram uma revisão sistemática da literatura científica que tem abordado a resposta da decomposição dos detritos vegetais ao aumento da concentração de nutrientes nos ribeiros

Cristina G. Pedraz/DICYT A decomposição da folhada é um processo fundamental nos ribeiros florestais. Estes pequenos ribeiros constituem a maioria dos cursos de água em muitas bacias hidrográficas e, geralmente, encontram-se sombreados devido à vegetação circundante. A limitação da luz solar que chega à superfície da água inibe a produção primária ou produção vegetal, que é o processo que subjaz às cadeias alimentares em muitos sistemas como florestas, savanas, lagos ou mar aberto. No entanto, a vegetação circundante é uma fonte de restos vegetais, especialmente folhas, para os ribeiros. Estes detritos vegetais são decompostos por micro-organismos e invertebrados, que por suas ações conduzem à disponibilidade de carbono e nutrientes e sua incorporação nas cadeias alimentares.

 

Por isso, da decomposição da folhada depende toda a cadeia alimentar, a nível local e águas abaixo, onde as partículas, o carbono e os nutrientes liberados são utilizados por outros organismos. Dado que a decomposição dos detritos vegetais é levada a cabo por micro-organismos e invertebrados, é sensível às mudanças ambientais que afetam a atividade destes organismos.

 

Qualquer alteração ambiental tem o potencial de afetar a decomposição da folhada. Por exemplo, muitos cursos de água têm concentrações excessivas de nutrientes devido ao uso de fertilizantes agrícolas, à libertação de águas residuais, à deposição de nitrogênio atmosférico, ou à invasão das florestas por espécies vegetais fixadoras de nitrogênio.

 

“Estas situações provavelmente intensificar-se-ão no futuro como consequência do crescimento demográfico e a mudança climática”, explica Verónica Ferreira, pesquisadora do Grupo de Bacias Hidrográficas do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – MARE, um centro conjunto de seis universidades portuguesas, entre elas a de Coimbra (à qual pertence esta cientista).

 

Portanto, precisa, “é importante entender como a decomposição dos detritos vegetais responde à maior disponibilidade dos nutrientes e quais os fatores que podem restringir esta resposta, já que as mudanças na taxa de decomposição dos detritos podem resultar em mudanças no funcionamento dos ribeiros que poderiam, por sua vez, afetar os serviços que os ribeiros prestam às sociedades humanas, tais como o fornecimento de água de boa qualidade”.

 

Revisão de 99 artigos científicos

 

O Grupo de Pesquisa de Bacias Hidrográficas do MARE na Universidade de Coimbra trabalha há mais de 20 anos em decomposição de detritos vegetais, em colaboração com vários centros internacionais. Fruto deste trabalho cooperativo, publicaram recentemente na revista científica Biological Reviews um artigo no qual realizam uma revisão sistemática da literatura científica que abordava a resposta da decomposição de detritos ao aumento da concentração de nutrientes nos ribeiros.

 

As revisões sistemáticas, recorrendo a técnicas como a meta-análise, permitem condensar a informação e, com frequência, revelam efeitos que não podem ser detectados nos estudos originais que contam com pouca precisão (devido ao baixo número de amostras) ou onde a magnitude do efeito é baixa, pelo que “seu uso em ecologia dos ribeiros deve ser fomentado”.

 

Do artigo, encabeçado por Ferreira, participa o MARE português junto à Royal Holloway University of London (Reino Unido), a Universidade de Burdeos (França), o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (França), a Universidade de Coastal Carolina (Estados Unidos) e o Centro Nacional de Pesquisa Científica – CNRS (França).

 

Segundo detalha Ferreira, durante os últimos 45 anos publicaram-se muitos estudos utilizando diferentes enfoques: experimentos de laboratório, ensaios de campo ao longo de gradientesnaturais de nutrientes ou ao longo de gradientes resultes de atividades humanas e ensaios de campo com uma manipulação experimental da concentração de nutrientes, todos eles já levados a cabo pelo Grupo de Pesquisa de Bacias Hidrográficas. No entanto, “há alguma variação nos resultados e, surpreendentemente, ainda não se tinha feito até a data nenhuma revisão exaustiva da literatura para extrair conclusões gerais”, recorda.

 

O artigo elaborado pela equipe de pesquisadores analisa 99 estudos e declara que, entre outros resultados, até 1994 não existiam provas de que o aumento de nutrientes tivesse um efeito sobre a decomposição de detritos vegetais. Só o conjunto de estudos permitiu aumentar a precisão do resultado e revelar um efeito estimulatório. “Isto demonstra que são necessários muitos estudos para que se possa ter a certeza de uma resposta”, afirma Ferreira. Esta estimulação é maior quando a concentração ambiental de nutrientes é baixa e quando a magnitude do enriquecimento é grande, sugerindo que ribeiros presentemente pouco impactados podem sofrer mais com o aumento na concentração de nutrientes do que os ribeiros onde a concentração de nutrientes já é alta.

 

Próximos passos

 

Como sugere a literatura, o efeito do aumento da disponibilidade de nutrientes na decomposição da folhada pode depender da variação de outros fatores. Por exemplo, “em um contexto agrícola, o aumento da concentração de nutrientes (com o potencial de estimular a decomposição dos detritos vegetais) está, com frequência, acompanhado por um incremento na concentração de pesticidas (com o potencial de inibir a decomposição de detritos vegetais)”, conclui a especialista, que acrescenta que, por isso, é “urgente” que estudos adicionais abordem estes condicionantes, que são situações que acontecem frequentemente em campo.

 

 

 

Referência bibliográfica:
Ferreira, V., Castagneyrol, B., Koricheva, J., Gulis, V., Chauvet, E. y Graça, M. A. S. (2015). “A meta-analysis of the effects of nutrient enrichment on litter decomposition in streams”. Biological Reviews. doi: 10.1111/brv.12125