Ciencia España , Salamanca, Viernes, 27 de abril de 2012 a las 13:44

“O caráter aberto da Ciência está em perigo”

Especialista em Filosofia da Ciência defende em Salamanca a extensão do caráter colaborativo das novas tecnologias a processos de pesquisa científica

JPA/DICYT Eduard Aibar, doutor em filosofia pela Universidade de Barcelona, protagonizou no dia 25 de abril a sessão inaugural do Encontro de Estudantes de Doutorado do Instituto da Ciência e Tecnologia (eCyT) da Universidade de Salamanca. O especialista em Filosofia da Ciência e em Sociedade da Informação e do Conhecimento explicou que as novas tecnologias permitem uma grande difusão do conhecimento científico, mas que esta se vê restringida por algumas convenções contrárias ao espirito que durante séculos forjou uma Ciência colaborativa e de resultados abertos.

 

Aibar defende o acesso aos resultados da Ciência, bem como aos métodos e processos da pesquisa. “A origem do caráter aberto da Ciência está na Revolução Científica”, afirma, “e atualmente existe um movimento que luta para manter alguns atributos da Ciência aberta que agora estão em perigo, especialmente devido ao ‘copyright’”, indica. Ademais, “pretende-se ampliar os atributos da Ciência aberta tendo como modelo a cultura ‘hacker’ de produção colaborativa na rede”, comentou em declarações a DiCYT.

 

Em sua opinião, os atributos da Ciência aberta estão em perigo por dois motivos. Em primeiro lugar, “as leis do ‘copyright’, que nasceram há mais de um século para fomentar a criação e proteger os criadores da voracidade econômica dos editores, atualmente beneficiam mais os editores do que os próprios criadores”, o que no caso da Ciência “está claríssimo”, agrega. “Ainda que tenhamos uma infra-estrutura como a internet que, a princípio, permitia o acesso a todos os resultados da pesquisa científica, o fato é que se estima que apenas 10% dos artigos científicos são abertos no sentido de possuir um acesso universal. Na maioria dos casos é preciso pagar taxas às sociedades científicas ou aos editores, o que impede que um cidadão comum possa acessar a informação científica em primeira mão”, comenta.

 

Em segundo lugar, “as políticas científica estão sendo influenciadas por uma tendência neoliberal que pressiona as universidades e centros de pesquisa para que valorizem seus resultados através do comércio”. Isso significa patenteá-los e “patentear alguma coisa representa restringir o acesso de outros setores da sociedade aos resultados”. Ambas tendências, indica Aibar, estão colocando a situação atual da Ciência aberta em perigo.

 

O especialista da Universidade de Barcelona também questiona o caráter competitivo que se pretende impor à Ciência, “já que durante séculos houve um âmbito cooperativo”. De fato, em âmbitos destacados como a Genômica existem projetos nos quais os pesquisadores “têm a obrigação de publicar os dados de seus sequenciamentos genéticos enquanto avança o projeto, e ninguém está preocupado com isso, é algo positivo”.

 

Um fator importante é que a tecnologia atual permite formas de difusão e cooperação “impensáveis há apenas 15 anos”, de acordo com o especialista. A princípio, isso abre possibilidades, mas “tudo depende do que façamos com elas”, indica. “Atualmente existe uma guerra científica e cultural na internet que envolve diretos autorais”, sendo a música a parte mais conhecida nessa batalha. “Aí está o modelo que a sociedade deverá escolher para a produção da cultura e conhecimento, não se trata da subsistência de alguns autores ou de uma indústria, mas algo muito mais sério”, opina.

 

O Encontro de Estudantes de Doutorado inaugurado pelo professor Eduardo Aibar é celebrado durante três dias com o objetivo de que os doutorandos do instituto eCyT da Universidade de Salamanca apresentem seus projetos de pesquisa. Aibar faz parte do grupo de Avaliação de Políticas Científicas da instituição acadêmica de Salamanca.