Ciencia Portugal , Coimbra, Viernes, 24 de abril de 2015 a las 15:36
INESPO II

O fogo, elemento-chave no processo ecológico e evolutivo da vegetação na bacia do Mediterrâneo

Ecossistemas propensos a incêndios, como os mediterrânicos, são dominados por vegetação adaptada ao fogo, como resultado de milhões de anos de vinculação entre plantas e fogo

Cristina G. Pedraz/DICYT A ‘Ecologia do Fogo’ é uma disciplina científica que estuda o papel do fogo em organismos e ecossistemas. Embora os incêndios são geralmente considerados como negativos, estes também fazem parte do ecossistema e há evidências de que têm acontecido desde sempre, desde o surgimento das plantas terrestres há milhões de anos, no Paleozoico; portanto, têm feito parte da sua evolução. Por exemplo, ecossistemas propensos ao fogo, como o mediterrânico, são dominados por vegetação adaptada ao fogo, como resultado desta longa associação.

 

Nesta linha de investigação sobre a Ecologia do Fogo trabalha o Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, alojada na Faculdade de Ciências e Tecnologia e ligada especialmente ao investigador Bruno Moreira, quem assegura que é “fascinante” tentar compreender as estratégias e mecanismos que as plantas tomam para sobreviver nestes ecossistemas e ver os efeitos que produz o fogo sobre os padrões de vegetação.

 

Moreira anda a estudar principalmente o papel do fogo na ecologia das plantas e dos ecossistemas na zona do Mediterrâneo. “Muitas espécies que crescem em áreas onde o fogo é um fator importante adquiriram características adaptativas que lhes permitem persistir nestes ecossistemas. Por exemplo, há algumas espécies que desenvolveram uma casca muito grossa, o que lhes permite resistir ao fogo; há outras que têm a capacidade de rebrotar após serem queimadas pelo fogo a partir de órgãos protegidos do calor”, lembra.

 

Há também características relacionadas com a persistência a nível populacional. “Os indivíduos adultos são eliminados pelo fogo, mas a população persiste por um recrutamento pós-fogo de sementes acumuladas em cones (uma adaptação ecológica chamada de serotinia) ou no próprio chão”, explica.

 

Bruno Moreira trabalha nesta linha de investigação há nove anos. Como estudante de graduação, fez um estágio no Instituto do Médio Ambiente e Sustentabilidade da Comissão Europeia, em Itália, no âmbito do projeto INFOREST-Information and monitoring of the forest environment, onde ele começou a aprofundar esta linha. Uma vez licenciado, obteve uma bolsa Leonardo da Vinci para trabalhar no Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo, na Espanha, onde participou em vários projetos e colaborou com vários especialistas na área de incêndios florestais, ecologia, conservação de plantas e recuperação dos ecossistemas mediterrânicos. A continuação, teve a possibilidade de realizar um doutoramento na área da Ecologia do Fogo com o Doutor Juli G. Pausas, do Centro de Investigação sobre a Desertificação do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas), também na Espanha, com quem continua a trabalhar no presente.


Neste tempo, aprofundou os mecanismos que permitem as plantas sobreviverem ao fogo, os fatores que afetam à capacidade das plantas para rebrotarem ou a estimulação da germinação pelo calor ou o fumo associados com o fogo.

 

Para materializar esses estudos fazem-se diferentes abordagens técnicas e metodológicas, principalmente com trabalho experimental de campo e de laboratório para medir as características das plantas associadas com o rebrote, o recrutamento pós-fogo, o próprio fogo ou a genética das populações.


O papel do fumo no crescimento das plântulas

 

Os resultados obtidos ao longo destes anos em torno desta linha de investigação apoiam o papel destacado do fogo como elemento-chave no processo ecológico e evolutivo na bacia do Mediterrâneo. Em artigos publicados em revistas como PLOS ONE, Annals of Botany ou Journal of Vegetation Science os investigadores demonstraram que tanto o calor como o fumo associados com o fogo estimulam a germinação de várias espécies vegetais da bacia do Mediterrâneo. E em algumas espécies o crescimento inicial das plântulas também é estimulado pelos compostos químicos que há no fumo.


Aliás, no contexto da hipótese de que em ecossistemas propensos ao fogo a seleção natural favorece características que aumentam a capacidade de inflamação, encontraram evidências de que uma espécie germinadora, Ulex parviflorus, existente em áreas de incêndios recorrentes, “tem maior inflamabilidade que populações da mesma espécie existentes em áreas onde o recrutamento é independente do fogo”, explica Moreira.

 

Próximos passos


No futuro, o objetivo é estudar e compreender o efeito do fogo sobre a estrutura das comunidades em ecossistemas predispostos aos incêndios. “Estabelecer os fatores que determinam e como determinam a riqueza de espécies, compreender quais as espécies que são afetadas positivamente e quais negativamente, descobrir que características estão ligadas a estas espécies e aprofundar a convivência dentro da comunidade, ou seja, por que se produzem certas associações entre umas espécies e não outras, são alguns dos próximos passos”, conclui o investigador.

 

 

 

Referências bibliográficas:

Moreira B., Castellanos M.C., Pausas J.G. (2014). “Genetic component of flammability variation in a Mediterranean shrub”. Molecular Ecology, 23 (5): 1213-1223

 

Tormo, J., Moreira., y Pausas, J. G. (2014). “Field evidence of smoke-stimulated seedling emergence and establishment in Mediterranean Basin flora”. Journal of Vegetation Science, 25 (3): 771-777