Ciencia España , Burgos, Viernes, 27 de julio de 2012 a las 11:58

“O Homo heidelbergensis tinha uma capacidade de fala semelhante a de uma criança de 10 anos”

Professor de Paleontologia, Ignacio Martínez, dá a última palestra do ciclo que comemora os 20 anos da descoberta de Miguelón

Cristina G. Pedraz/DICYT O homem da Sima de los Huesos, o Homo heidelbergensis, estava suficientemente evoluído para falar, ainda que sua capacidade estivesse um passo atrás da do homem moderno. Trata-se da evidência mais antiga da comunicação humana, como explica a DiCYT Ignacio Martínez, pesquisador e coordenador da Área de Evolução Humana do Centro de Evolução e Comportamento Humano UCM-ISCIII (Universidade Complutense de Madri-Instituto de Saúde Carlos III), que dá hoje a última palestra do ciclo do Museu da Evolução Humana (MEH) que comemora os 20 anos da descoberta de Miguelón.

 

A equipe de Ignacio Martínez trabalha desde finais dos anos 90 nesta linha de pesquisa, através de duas aproximações diferentes. “O problema de estudar a linguagem é que não temos uma máquina do tempo que permita saber se falavam, de modo que estudamos distintas linhas de evidência. Se todas coincidirem em um mesmo ponto, teremos uma certeza muito séria”, indica o pesquisador, que destaca a riqueza e qualidade dos fósseis encontrados na Sima de los Huesos, o que permitiu abrir estas duas aproximações ao problema.

 

A primeira, detalha, trata “de reconstruir a anatomia das vias aéreas superiores, com as quais falamos, a garganta e a boca”. “As pessoas têm uma anatomia especial que nos permite produzir os sons da linguagem. Por exemplo, os chimpanzés não podem fazer os sons das consoantes e isto tem uma aplicação anatômica. Os fósseis de que dispomos, um osso hióide (que está na base da língua) e as vértebras do crânio 5, que nos permitem saber como era seu pescoço, evidenciam que as pessoas da Sima de los Huesos eram diferentes dos chimpanzés e, no que se diferenciam destes, parecem-se muito aos humanos, ainda que não sejam exatamente iguais”, enfatiza.

 

Assim, a nível fisiológico, o Homo heidelbergensis “tinha a capacidade de uma criança de 10 anos, de modo que podia falar perfeitamente”, assegura. Diante desta aproximação “clássica”, já que estes estudos sobre a capacidade anatômica já foram realizados com outros fósseis em outros lugares do mundo, a equipe de pesquisa de Ignacio Martínez trabalha em uma linha inovadora.

 

Estudo da audição

 

“Desenvolvemos uma metodologia nova para estudar uma aproximação ao problema na qual ninguém tinha pensado, através da audição”. Através dos pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) e também do próprio osso temporal (no qual está alojado o ouvido), é possível fazer uma reconstrução e analisar seu funcionamento. “É como fazer um audiograma. Com estes fósseis somos capazes de reconstruir com precisão como ouviam. Os humanos escutam de maneira diferentes dos chimpanzés, também porque estão especializados na linguagem. Do mesmo modo que os chimpanzés não podem pronunciar as consoantes, uma parte delas ressoa em freqüências que os chimpanzés não têm sensibilidade para ouvir, tampouco capacidade de distingui-las com facilidade. Por outro lado, a essa gama de freqüências nosso ouvido está adaptado e tem muita sensibilidade,e assim distinguimos muito bem as consoantes. Ao estudar os fósseis da Sima vimos coisas parecidas, sua sensibilidade acústica é muito diferente da dos chimpanzés e se parece muito a dos humanos, mas ainda não é igual”, agrega o especialista.

 

Em relação às novas descobertas realizadas na Sima de los Huesos durante esta campanha, Ignacio Martínez afirma que não lhes ajudarão a seguir nesta linha, já que não pertencem à região que estudam. No entanto, abriram novas vias de trabalho e prevêem trasladar os estudos ao ouvido interno, bem como estender a nova metodologia desenvolvida sobre a audição a outros fósseis mais antigos encontrados em outras partes do mundo.

 

Trajetória profissional

 

Doutor em Biologia pela Universidade Complutense de Madri, Ignacio Martínez, é membro das escavações e pesquisas da Serra de Atapuerca desde 1984 e faz parte da equipe que estuda a Sima de los Huesos há mais de 20 anos. Suas principais linhas de pesquisa se relacionam com a base do crânio e a origem da linguagem e audição na evolução humana. É autor de numerosos artigos científicos nas mais prestigiadas revistas do campo da evolução humana (como Nature e Science), livros de ensaio e divulgação.