Social Sciences Brazil Campinas, São Paulo, Friday, February 07 of 2014, 10:36

Os desafios para o desenvolvimento científico no continente africano

Liderança e vontade política, financiamento para ciência e para pesquisa, desconexão entre as pesquisas realizadas e o cotidiano das pessoas são alguns dos problemas a serem superados

Giselle Soares/ComCiência/Labjor/DICYT - Em 1980, quando o Plano de Ação de Lagos foi estabelecido, todos os países africanos se comprometeram a investir 1% do seu PIB em pesquisa científica. Hoje, mais de trinta anos depois, apenas cinco países atingiram esse objetivo: Egito, Marrocos, Tunísia, Maurício e Ruanda, o único que não só atingiu, como excedeu a meta, chegando a investir 3% do PIB em pesquisa científica. Quem fornece esses dados é Elizabeth Razekoala, fundadora da Rede da África e do Caribe para a Ciência e a Tecnologia (ACNST), uma ONG com sede na Cidade do Cabo que trabalha para promover o desenvolvimento do capital humano; raça e igualdade de gênero; e inclusão social no empreendimento científico, na diáspora africana e no continente africano. Razekoala é uma das palestrantes do 13a Conferência Internacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (PCST), que será realizada de 5 a 8 de maio em Salvador, Bahia.

 

A porcentagem estabelecida no Plano de Ação de Lagos equivale ao que o Brasil investe atualmente em ciência, tecnologia e inovação, aproximadamente 1% do Produto Interno Bruto. Enquanto isso, nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a média de investimento é de 2,3% do PIB.

 

Segundo Razekoala, os principais desafios para o desenvolvimento científico na África são a liderança e a vontade política, o financiamento para ciência e para pesquisa - que em grande parte vem do exterior -, a desconexão entre as pesquisas realizadas e o cotidiano das pessoas, e o capital humano limitado. "O tipo limitado de pesquisa que se faz na África é totalmente desconectado da realidade das pessoas comuns. A ciência continua sendo praticada por uma elite muito pequena", lamenta a pesquisadora. Ela destaca também a "fuga de cérebros" no continente: "As pessoas conseguem se qualificar, fazem seus doutorados e vão para o exterior porque não há oportunidades aqui. Nós continuamos neste ciclo vicioso", explica.

 

Razekoala ressalta, ainda, a necessidade de estimular o debate público da ciência em países em desenvolvimento, a fim de que a população perceba a relação entre temas científicos e seu cotidiano. "Como você faz as mulheres entenderem a relação entre a vacinação e as doenças infantis, como polio, sarampo e o impacto na mortalidade infantil?", questiona. "Nós não olhamos para nossa própria realidade e não percebemos como podemos inovar para lidar com esses paradigmas. Acredito que a ciência pode auxiliar a inclusão social nesses países e que isso evitaria vários conflitos. Um dos consensos sobre o continente africano é que a falta de inclusão social é a causa principal de conflitos", afirma a fundadora da ACNST.

 

Elizabeth Razekoala será uma das conferencistas do PCST, que ocorre pela primeira vez na América Latina. Ela debaterá o grande tema do evento: Comunicação pública da ciência para inclusão social e engajamento político. De acordo com ela, será uma oportunidade para levantar a questão da comunicação pública da ciência e da tecnologia em todo o continente, não apenas no Brasil, bem como para tratar da questão da inclusão social no sistema de C,T&I. "Espero que a conferência deixe um legado de mudança, algo que diga, agora a América Latina realmente se comprometeu com a inclusão social no sistema de C,T&I". Razekoala deseja que, a partir da conferência, a Rede da África e do Caribe para a Ciência e a Tecnologia estabeleça parcerias com o Brasil, em particular com a comunidade afro-brasileira.