Social Sciences Brazil , Brasil, Friday, April 26 of 2019, 13:11

Pesquisador da USP investe na formação de cientistas divulgadores

Jorge Melendez: "É extremamente preocupante como são divulgadas informações falsas sem base científica, como a polêmica da Terra plana e a das vacinas que causariam autismo"

Bruno Lara/DICYT A Astronomia é um campo científico que tradicionalmente desperta grande interesse social. A matéria escura, o Sol, a possibilidade de vida em outro planeta, o Big Bang, o buraco negro ... tudo isso permeia a curiosidade e a imaginação de muitos de nós (quem sabe, de todos nós!?).

 

Mas, é uma área que trata de conteúdos nem sempre tão fáceis de entender. Por isso, inclusive, tem crescido a quantidade de cursos e eventos de divulgação científica nessa área. Um exemplo disso é a disciplina "Divulgação em Astronomia", criada como matéria optativa há cinco anos pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (USP).

 

O criador e responsável por essa disciplina é o físico e astrônomo Jorge Luis Melendez Moreno. Em entrevista concedida ao blog Dissertação Sobre Divulgação Científica, ele contou que a matéria tem gerado diversos resultados práticos para a formação de pesquisadores com consciência mais clara sobre a importância da interação entre a ciência e a sociedade em geral.


Quando e como surgiu a ideia de criar uma disciplina de divulgação científica em Astronomia na graduação da USP?

A ideia surgiu em novembro de 2012, quando estavam sendo discutidas possíveis disciplinas relacionadas à vertente de Ensino/Divulgação do Bacharelado em Astronomia. Naquela época, não foi identificada nenhuma disciplina na USP com o perfil específico de divulgação científica. Então, eu elaborei uma proposta de criação da nova matéria optativa, chamada "Divulgação em Astronomia", que foi oferecida pela primeira vez por mim em 2014.

 

Como tem sido a receptividade dos estudantes?

Em geral, os estudantes interessados procuram expandir os seus conhecimentos e as suas experiências fora do âmbito de disciplinas estritamente ligadas a ciências exatas, como matérias de cálculo e física, por exemplo. Parte deles já tinha algum interesse em ensino ou divulgação. A disciplina tem permitido a eles desenvolvam esses interesses através de diversos projetos.

 

As experiências têm sido muito positivas, como podemos observar na qualidade dos trabalhos desenvolvidos. Por exemplo, várias hashtags "#AstroThreadBR" que os estudantes usam para divulgar temas da Astronomia no Twitter são destaque no twitter Moments Brasil (MomentsBrasil).

 

Vários estudantes ficam muito contentes com os resultados de projetos desenvolvidos em diversas escolas, onde são muito bem recebidos, superando expectativas que eles mesmos projetam. Um estudante nosso, o Matheus Castro, trouxe uma escola para o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), onde usou pela primeira vez o Observatório no IAG/USP, como demonstração, após a recuperação dos equipamentos da unidade.

 

Quais conteúdos são abordados nas aulas?

São discutidos diferentes temas de interesse da mídia, os diversos veículos de divulgação, o público-alvo, a importância política da divulgação científica, técnicas de apresentação em público, media training (treinamento para lidar com jornalistas), o modelo linear de comunicação, o papel de cientistas, da assessoria de imprensa, dos jornalistas/divulgadores científicos, do público em geral, as técnicas de comunicação escrita, redação de releases e matérias para o público, jornalismo de dados, possibilidades de especialização, estágios e empregos em divulgação científica.

 

Enfim, são muitos os temas. Utilizamos como estratégica, também, a discussão de diferentes estudos de caso, muitas vezes com a participação de importantes divulgadores científicos. Recentemente, o Schwarza, do canal Poligonautas, esteve com a gente para trocar informações, experiência e cultura. Foi bem enriquecedor.

 

Recentemente, um estudante da sua disciplina de divulgação científica foi contemplado para estagiar no Instituto do Telescópio Espacial Hubble, nos Estados Unidos. Como foi esse processo e quais outros frutos você observa que a disciplina gera?

Foi um processo muito competitivo, com mais de 400 candidatos do mundo todo pleiteando poucas vagas no Instituto do Telescópio Espacial Hubble. Eu divulguei a possibilidade de estágio em uma das aulas, e o aluno Lucas Batista mostrou interesse em se candidatar à vaga. Para apoiar a candidatura, eu escrevi uma carta de recomendação, destacando o projeto de divulgação feito pelo Lucas na disciplina de Divulgação. Foi analisado, inclusive, o perfil e o currículo dele, que fez um trabalho muito bom de divulgação com alunos do Colégio de Aplicação João XXIII, em Juiz de Fora-MG. O estágio está previsto para começar no dia 17 de junho e terminar em 16 de agosto. Fiquei muito feliz em ter um estudante da minha disciplina contemplado para uma vaga de estágio de divulgação científica nesse prestigiado Instituto.

 

Em relação aos frutos que a disciplina gera, acredito que todos os projetos desenvolvidos pelos alunos foram importantes iniciativas de difusão científica, e serviram para engajar os estudantes nesse necessário relacionamento entre ciência e sociedade.

 

Alguns projetos, inclusive, tiveram continuidade mesmo após os estudantes concluírem a disciplina. Por exemplo, temos o projeto Cauda_do_Cometa, relacionando a cultura pop à ciência, via mídias sociais e marcadores de livro feitos para serem distribuídos em escolas. Já o projeto Astro Mulheres destacou importantes contribuições das mulheres à ciência, via desenhos sobre as cientistas e textos sobre as suas descobertas. Para esse projeto foi discutida a possibilidade de ser editado um livro reunindo as contribuições de diferentes pesquisadores. Também fiquei gratamente surpreso com o potencial artístico de alguns estudantes, como por exemplo a Melissa de Andrade. Ela fez uma arte sobre o ciclo do carbono, mostrando como a fonte de energia do interior da Terra é importante para manter essa dinâmica equilibrada. Diversos veículos científicos e da imprensa divulgaram o trabalho, como o Observatório Europeu do Sul, o blog Mensageiro Sideral, da Folha, a BBC Brasil e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

 

Em geral, a Astronomia é um campo que interessa à sociedade, estimula a curiosidade das pessoas. Mas, há algum tema específico da área com mais apelo social?

Diversos temas da Astronomia despertam interesse no público, como os buracos negros e a vida no universo. Mas, também existem áreas interdisciplinares com mais apelo social, como a Arqueoastronomia, que procura resgatar o conhecimento astronômico de antigas civilizações. Infelizmente, a conquista de culturas indígenas não apenas dizimou diversas populações, como também promoveu um extermínio cultural em vários territórios. Um papel importante da Arqueoastronomia é valorizar os avanços desses povos. Por exemplo, as culturas andinas do antigo Peru podiam prever as mudanças das chuvas ocasionadas pelo "El niño", usando cuidadosas observações das estrelas Plêiades.

 

O Brasil costuma ter bons desempenhos científicos e de educação científica em Astronomia, inclusive internacionalmente. Cientistas brasileiros participam de importantes projetos de pesquisas internacionais e grupos de estudantes costumam vencer olimpíadas. Mas, parece que essas conquistas não são tão percebidas pela sociedade. Você concorda? Falta ação dos divulgadores da ciência ou o problema é da imprensa?

Concordo que falta uma maior divulgação das importantes pesquisas sendo feitas no Brasil. Certamente é fundamental uma maior cobertura da mídia. Mas, precisamos também de um maior engajamento dos pesquisadores com a divulgação científica. É urgente estabelecermos uma boa assessoria de imprensa nas diferentes instituições de pesquisa, que possam dar apoio na elaboração de comunicados à imprensa e produção de materiais, como arte e animações para ilustrar as pesquisas.

 

Em geral, qual é o posicionamento e a motivação dos seus colegas de profissão, outros cientistas da área, em relação à divulgação científica em Astronomia?

Antigamente, a divulgação científica não era muito bem vista. O foco da Astronomia no Brasil era estritamente acadêmico. Mas, isso tem mudado nos últimos anos. A divulgação científica não é apenas importante para difundir o conhecimento científico à sociedade, mas também é fundamental para educar a população no método científico e para mostrar a importância desse tipo de saber para o desenvolvimento de um país. De fato, cortes brutais no orçamento da ciência e tecnologia, como os anunciados recentemente, ameaçam a possibilidade de um dia o Brasil ser um país plenamente desenvolvido. Um país sem ciência é um país sem futuro.

 

Quais são os espaços e as estratégias de divulgação científica que você utiliza?

Eu gosto de fazer divulgação científica usando diferentes espaços. Mas, realizo essa atividade com limitações porque sou muito envolvido com a pesquisa, o ensino e a formação de novos astrônomos. Isso demanda muito tempo e dedicação. Eu tento fazer esforços que possam atingir um vasto público, como por exemplo as divulgações das nossas pesquisas através de comunicados à imprensa, o que pode atingir milhões de pessoas, dependendo do veículo. Tenho uma participação ativa de divulgação no Twitter, por meio das contas AstroUSP e DrJorgeMelendez. Também, sempre que possível, tento fazer divulgação presencial, como através de palestras abertas ao público.

 


Qual é, atualmente, a sua principal questão de pesquisa?

O meu principal projeto de pesquisa é o estudo de gêmeas solares (estrelas muito similares ao Sol) e a procura de planetas ao redor dessas estrelas.

 

O meu grupo SAMPA estuda detalhadamente gêmeas solares, em comparação ao Sol, usando a chamada técnica diferencial. Estudar estrelas gêmeas solares de diferentes idades é fundamental para entender o passado e o futuro de nosso Sol.

 

A longo prazo, o nosso objetivo é contribuir para a descoberta do que chamamos de Terra 2.0 (planeta com características semelhantes à Terra). Isso é muito desafiador, pois por falta de pagamento o Brasil foi desligado em 2018 do Observatório Europeu do Sul (ESO), o maior consórcio internacional de Astronomia, que tem instrumentação de ponta necessária para esse tipo de pesquisa.

 

A Astronomia é um campo científico em que a interdisciplinaridade é bem característica. Relaciona-se com a Física, a Ciência da Informação, com a Matemática, com a História, fomenta profundas reflexões filosóficas e, também, estimula a criatividade artística e poética. Como ocorrem essas relações? É somente uma percepção na esfera do senso comum, ou de fato a área acadêmica lida de forma próxima com essas interações?

Embora a Astronomia seja um ciência interdisciplinar, em muitos casos os cientistas precisam focar em projetos específicos, limitando as possibilidades de interações. Devido à especialização, às vezes é difícil interagir, mesmo dentro de diferentes áreas da Astronomia, e mais complicado ainda com outras disciplinas. Em áreas como a Astrobiologia, a colaboração entre diferentes disciplinas é fundamental, mas na grande maioria dos campos da Astronomia, não existe muita interdisciplinaridade.

 

Acredito que a visão geral da Astronomia é muito valiosa para poder explorar as implicações de uma pesquisa específica em um contexto mais amplo. Eu, por exemplo, uso a técnica de espectroscopia, mas a minha pesquisa tem muitas aplicações em diferentes áreas, como Astrofísica Estelar, Exoplanetas e a evolução da nossa galáxia.

 

É muito valiosa, também, a possibilidade de interação com diferentes disciplinas, como no caso da Astrobiologia ou da Arqueoastronomia. Para que essas interações possam ser estabelecidas, precisamos de uma visão geral, não apenas das diferentes áreas da Astronomia, mas também das diferentes campos das ciências exatas, biológicas e humanas.

 

O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação foi astronauta. O que isso representa para a área? Há alguma implicação prática, do ponto de vista da capitalização político-acadêmica?

Acredito que a especialidade exata do Ministro de Ciência e Tecnologia não seja muito relevante, desde que seja uma pessoa com formação científica e familiarizada com o meio acadêmico. Mais do que uma pessoa específica, precisamos de políticas que valorem a importância do desenvolvimento científico e tecnológico de um país. Do contrário, estaremos condenando o Brasil ao atraso e à dependência científica e tecnológica.

 

Há algum tópico sobre o qual você gostaria de comentar, mas deixamos de abordar durante a entrevista?

É extremamente preocupante como são divulgadas informações falsas sem base científica, como, por exemplo, a polêmica da Terra plana e a das vacinas que causariam autismo. Uma tarefa importante da divulgação científica é a de educar a população no método científico, que é a busca pela verdade via o teste rigoroso de uma determinada hipótese. Ciência não é achismo, ciência é uma contínua construção de modelos do funcionamento da natureza, via hipóteses que podem ser testadas usando experimentos.

 

Também gostaria de salientar o apoio da Geisa Ponte na monitoria e nos trabalhos propostos no último oferecimento da disciplina de Divulgação em Astronomia no IAG/USP, em 2018. Agradeço a todos os que têm colaborado com o sucesso da disciplina.