Antonio Martín/DICYT Situada a centenas de quilômetros do mar, a população romana de Asturica Augusta (atual Astorga) comia moluscos, alimentos que ainda hoje estão associados à alta sociedade. Uma pesquisa arqueológica conseguiu resgatar entre 1.300 e 1.400 conchas e outros restos de moluscos, a maioria ostras, que se encontravam espalhados no substrato da cidade romana. Pesquisadores da Universidade de León, do grupo de Arqueologia Malacológica (disciplina que analisa a aparição de restos de moluscos em jazidas arqueológicas), analisaram a importância destes alimentos na dieta daqueles cidadãos e puderam estabelecer como as ostras chegavam aos pratos dos patrícios de Astorga.
O estudo, realizado pelos cientistas da Área de Pré-história Carlos Fernández e Natividad Fuertes, faz parte de uma análise mais exaustiva sobre os restos arqueológicos procedentes das escavações sucessivas realizadas em Astorga. Este estudo foi dirigido pela falecida María Teresa Amare. Entre os anos 1996 e 1997, a coordenadora do projeto iniciou a recopilação da informação das descobertas arqueológicas conseguidas até esta data em Astorga (sudeste da província de León). Ademais de cerâmica, vidros e ânforas resgatados, nas jazidas foram encontrados também restos de animais, de mamíferos e moluscos, fundamentalmente. Os ossos de mamíferos procediam tanto de animais silvestres (caça que havia servido de alimento), como de animais domésticos (gado ou mascotes).
Os arqueologistas malacólogos analisaram a importância dos moluscos como componente da dieta de parte da população romana de Asturica Augusta. “O fato de encontrar-se restos destes alimentos indica que esses habitantes tinham gostos de elite”, explica a DiCYT Natividad Fuertes. E tem outra implicação, ademais da sociológica: “Devia existir uma relação mercantil com populações da costa atlântica que possibilitava o comércio destes produtos com o interior”. Deve-se ter em conta que as ostras e outros moluscos possuem um tempo de consumo muito rápido, o que fazia necessária uma rede de transportes bastante estabelecida para que os alimentos chegassem frescos à cidade de Astorga.
Estes restos de moluscos foram encontrados em vilas romanas da costa da Galícia e em algumas localidades do interior (em Lugo ou em alguma vila das Médulas, então importante centro mineiro do Império Romano). Também aparecem ostras no acampamento de Legio VII Gemina (atual León) e em Lancia. Os pesquisadores consideram que Asturica Augusta estava integrada em uma rede comercial que unia a cidade com a costa e que, graças a sistemas de transporte e preservação, esta rede permitiu atender à demanda nutricional dos habitantes da capital do conventus de Asrtoga (divisão administrativa romana inferior à província, o de Asturica Augusta era um dos três que compreendia a província de Gallaecia).
Metodologia de estudo
No momento de interpretar o significado destes restos de moluscos, o grupo de Pré-história da Universidade de León empregou uma coleção de laboratório de História e referências bibliográficas, com o auxílio de especialistas em Ciências Biológicas das Universidades de Santiago de Compostela e León. Para datar estes objetos arqueológicos, os especialistas levaram em conta “o contexto ao qual pertencem”, explica Fuertes, isso é, a partir de uma técnica de associação a outros objetos da jazida (moedas, estruturas conservadas...). “Dispensamos os restos pouco claros, para não cometermos equívocos”, afirma a historiadora.
Os restos pertencem a duas épocas históricas diferentes, à alto imperial (séculos I e II de nossa era) e à baixo imperial (séculos III e IV). A extração foi realizada em toda a cidade, já que, segundo consideram os especialistas, Astorga é uma “jazida única”, porque construída sucessivamente sobre os restos de diferentes épocas. A investigação também concluiu que os romanos de Asturica Augusta usavam as conchas como adornos.