AMR/DICYT O sepulcro real da basílica de San Isidoro mereceu a qualificação de Capela Sixtina do Românico pela riqueza de suas pinturas murais. As seis abóbodas do pórtico ocidental da antiga igreja romana contêm um programa iconográfico muito variado, centrado em cenas bíblicas, o santoral e o calendário agrícola. Para sua melhor conservação, não é permito fotografar os afrescos a menos de um metro, o que impede que o espectador possa observar seus detalhes. Um documentário empregou, de forma inédita, a técnica de recriação em três dimensões deste espaço para gerar planos com movimentos praticamente impossíveis e aproximar-se aos elementos pictóricos. O filme, La dama del pórtico, estreará sábado na colegiada.
A idéia, segundo explica a DiCYT o diretor do documentário, o leonês Andrés Vázquez, “surgiu da idéia da necessidade de aproximar as pinturas a um primeiríssimo primeiro plano da câmera”, mas as políticas de conservação do monumento o impediam. Através do seqüenciamento de múltiplas fotografias com uma câmera de vídeo, a produtora que criou o filme pôde gerar a sensação de movimento e acoplar estas imagens à modelos tridimensionais (3D). Através de uma câmera virtual foi possível gerar qualquer movimento, como girar a vista da imagem de Cristo até os anjos que se encontram situados a 80 graus desta representação.
“Trata-se de um uso distinto da técnica de recriação 3D, que permite aproximar-se aos elementos pictóricos”, destaca Vázquez, produtor executivo do filme. Para conseguir este efeito, os técnicos da produtora autora do documentário ‘La Cuadratura del Círculo’, rodaram praticamente todo o tempo e utilizaram os programas informáticos 3D Estudio e After Effect para recriar os detalhes do sepulcro, “especialmente a iluminação”. “O efeito é tão realista que nem no próprio Museu da Real Basílica de San Isidoro puderam diferenciar as imagens reais das geradas no computador”, aponta Vázquez.
Sagan, inspirador
Esta nova aplicação das técnicas de reconstrução em três dimensões é inédito neste tipo de produtos audiovisuais, segundo os autores. “Reunimos informação histórica e técnica e praticamente não encontramos nada idêntico ao que realizamos”, indica o diretor. A inspiração veio depois que Vázquez viu a obra de divulgação científica do astrônomo Carl Sagan Cosmos: uma viagem pessoal. “Em uma cena, Sagan recria a Biblioteca de Alexandria e relembra como deveria estar este espaço, entre papiros e outros documentos”. Em outros âmbitos, o 3D esteve a serviço de “temas espaciais, para mostrar naves e arquitetônicos, como a recriação da Sagrada Família de Barcelona, mas não no sentido deste documentário”.
A equipe técnica fez cerca de 2.000 planos do sepulcro com o seqüenciamento de fotografias de alta resolução, das quais foram usadas 200 no filme. No resto do templo foram feitos outros 150 planos, sem efeitos especiais. “Consistiu em fazer muitos micro-planos para conseguir cada seqüência”, explica. Esta técnica cinematográfica, que gera movimento de planos estáticos, foi utilizada, por exemplo, no filme O império contra-ataca para recriar o movimento de veículos que possuíam traços zoomórficos, com imensas patas, usados pelo exército imperial de Darth Vader.
Visita virtual
Apesar de feitas mais maquetes em 3D que as utilizadas no documentário, os autores não pretendem dar-lhes mais uso que não nesta obra divulgadora. Já existe uma ferramenta na internet que permite a visita virtual ao templo e seu sepulcro, criada pela Fundação Telefónica e denominada arsVISUAL. Foram digitalizadas para a ocasião imagens de solos, paredes, tetos e capitéis.
O documentário La dama del pórtico será apresentado no sábado às 19 horas na Real Colegiada de San Isidoro e, em estilo de fábula, conta diferentes passagens da história do lugar, como sua criação ou a invasão francesa do século XIX. O projeto contou com a colaboração do museu de San Isidoro e o patrocínio de Caja España, Paradores e Hewlett-Packard.