Antonio Martín/DICYT Somos capazes de nos adaptar ao aquecimento global? Esta pergunta é feita por um grupo de físicos da Universidade de León, especializado em trabalhos sobre a influência de diferentes variáveis atmosféricas no meio ambiente ou na saúde. O grupo de pesquisadores analisou a influência de diferentes valores meteorológicos (temperatura, umidade, pressão) sobre a mortalidade de pessoas. O trabalho, realizado com dados de Castilla y León durante duas décadas, revelou qual é a temperatura de conforto na qual ocorrem menos casos entre as três principais causas de morte natural (doenças cardiovasculares, respiratórias e digestivas). No estudo foi encontrada uma circunstância peculiar: a temperatura de conforto aumentou com o passar do tempo, isto é, conforme evoluiu o aquecimento global.
O trabalho, desenvolvido pelo Departamento de Química e Física Aplicadas da Universidade de León com a colaboração de um professor da Universidade de Salamanca, consistiu em um estudo estatístico sobre a relação das três variáveis meteorológicas e as três causas de morte natural. Para tanto, o cientistas empregaram os dados dos observatórios meteorológicos de Castilla y León, cruzando-os com os de mortalidade dos hospitais do sistema público. Os dados eram mensais, “de modo que não refletem as mudanças repentinas de temperatura, como as ondas de calor ou os temporais de frio”, explica a DiCYT Roberto Fraile, um dos coordenadores do trabalho, “ainda que em todos os casos tenham pouca influência”. O trabalho compreendeu o período de 1980 a 1998.
Com estes dados, os autores determinaram as condições idôneas nas quais em Castilla y León ocorrem menos mortes por estas causas. As condições ideais contemplam uma pressão médica de 915 hectopascals, o que supõe, quando constantes, uma pressão equivalente a 1.000 milibares. A temperatura ideal é a da primavera, entre 17 e 20 graus, com valores mínimos entre 11 e 18, e máximos entre 24 e 27 graus. Quanto menor ou maior a temperatura, ocorrem mais falecimentos. Em relação à umidade, os valores ótimos se situaram entre 24% e 51%, “ainda que se deva considerar que a umidade varia muito na comunidade autônoma, que apresenta umidade mais alta nas províncias do norte, devido à presença de montanhas (o que causa mais precipitações), e mais baixas no centro, nas províncias de Zamora, Valladolid e Soria”, explica Fraile. Os resultados foram publicados no exemplar de julho da revista científica International Journal of Biometeorology.
Aumento da mortalidade
Durante as duas décadas submetidas a estudo, os cientistas detectaram um incremento da mortalidade devida a problemas cardiovasculares, respiratórios e digestivos, com um incremento de seis, 16 e quatro mil, respectivamente, neste período. “Não acredito que se possa atribuir à meteorologia, mas ao envelhecimento da população”, afirmou Fraile. Paralelamente ao aumento da mortalidade, as condições idôneas se incrementaram, segundo o exposto pelos especialistas no XXIème Colloque de l’Association Internationale de Climatologie, celebrada em Montpellier (França) há dois anos.
Os pesquisadores estabeleceram períodos quinzenais e observaram dois tipos de tendências. No caso das doenças do tipo circulatório, quando aumenta a temperatura no meio ambiente, incrementa-se a de conforto para estes dois tipos de doença, “o que significa certa adaptação ao meio”, indicam os especialistas. No caso das causas de mortalidade do sistema digestivo, a reação frente à temperatura ambiente pareceu ser oposta. No sistema respiratório não foram obtidos dados conclusivos. Deve-se considerar que as causas de mortalidade por razões circulatórias ou digestivas mostram picos no inverno, enquanto que as digestivas tendem a concentrar-se no período de seca. “Nossa temperatura ótima foi se adaptando ao aquecimento global”, resume Roberto Fraile.
Metodologia inovadora
Para realizar o estudo os pesquisadores empregaram uma metodologia estatística “inovadora” neste campo: a análise de componentes principais. Os cientistas contavam com dados da comunidade autônoma sobre mortalidades causadas por estas três causas, mas os dados meteorológicos eram das províncias. Através da análise dos componentes principais foi possível recriar os dados de um observatório meteorológico de toda Castilla y León: “Nas nove dimensões do estudo, uma por cada província, estabeleceu-se uma nuvem de pontos das temperaturas, umidade e pressão. Em algum lugar desta nuvem existia uma direção em que se mostravam os maiores extremos destes valores, a linha era mais comprida”, explica Roberto Fraile. Esta linha de valores, em cada uma das três variáveis, foi assumida como a do valor mais adequado para o conjunto da comunidade autônoma. “O observatório hipotético é capaz de representar a toda Castilla y León porque, ainda que seja um território extenso, apresenta uma superfície geralmente plana e homogênea”.
O trabalho foi realizado pelos pesquisadores do Departamento de Química e Física Aplicadas da Universidade de León, Roberto Fraile, María Fernández Raga, Covadonga Palencia e Amaya Castro, além de Tomás Clemente, do departamento de Física Geral e da Atmosfera da Universidade de Salamanca. - Somos capazes de nos adaptar ao aquecimento global? Questionaram-se estes autores. “A temperatura com o mais baixo número de mortes segue o mesmo padrão do aquecimento global”, respondem.