Florestas de Castela e Leão e florestas tropicais mexicanas apresentam carência de fósforo
José Pichel Andrés/DICYT O Instituto de Recursos Naturais e Agrobiologia de Salamanca (Irnasa, pertencente ao CSIC) e a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) deram início a um projeto de pesquisa que compara dois tipos de florestas muito diferentes, mas que possuem algumas características em comum: a floresta de carvalho negral de Castela e Leão e a floresta tropical mexicana. Ambos são carentes de fósforo, um nutriente essencial na captura de carbono atmosférico pelas plantas e que, por isso, contribui a reduzir o aquecimento global, como explicou em Salamanca um especialista da universidade mais importante do México.
Julio Campo Alves, responsável pelo Laboratório de Biogeoquímica Terrestre e Clima do Instituto de Ecologia da UNAM, explicou a DiCYT que o projeto está baseado na realização de “estudos comparativos em florestas limitadas pela disponibilidade de fósforo em Castela e Leão e florestas com o mesmo problema no México”. Graças à colaboração entre seu grupo de pesquisa e o grupo dirigido por Juan Gallardo, do Irnasa, “encontramos sistemas cujos funcionamentos são relativamente similares em florestas de Quercus pyrenaica nos quais, além de coincidir na pouca disponibilidade de fósforo, possuem outros aspectos funcionais que os fazem muito comparáveis aos bosques tropicais do México”, aponta.
As diferenças entre as zonas onde cresce o carvalho negral e as florestas mexicanas são evidentes: os espanhóis apresentam uma temperatura média de 10 graus centígrados frente aos 27 dos tropicais e, enquanto as primeiros estão formados praticamente por uma única espécie, nas segundas encontramos cerca de 300 espécies diferentes por hectare. No entanto, “as taxas de acumulação de carbono em biomassa e sua distribuição apresentam padrões similares, e queremos saber quais são as regras que definem a construção de tecidos de biomassa aérea e subterrânea que fazem similares a estes dois sistemas tão diferentes e que coincidem na limitação de fósforo”, declara o especialista.
A importância do fósforo para as florestas é enorme. “A vida se constrói a partir de não mais que 20 elementos e os mais importantes são o carbono, o oxigênio e o hidrogênio, mas logo depois viriam o nitrogênio e o fósforo”, assinala. O último tem um papel nas atividades metabólicas e é também necessário para a síntese dos materiais de informação genética e para que a planta capture elementos do meio para realizar suas funções. “Nas plantas, a taxa de fixação do carbono atmosférico depende da quantidade de fósforo que apresenta uma folha”, resume Julio Campo.
Chuva e carbono
A equipe de Juan Gallardo também participa, a partir do Irnasa, em outro projeto conjunto com Julio Campo para explorar as conseqüências das alterações na quantidade de chuva que recebe anualmente um ecossistema e a relação que este fato poderia ter com o balanço de carbono dos ecossistemas terrestres. “Estamos trabalhando em um sistema muito rico em carbono no trópico e que, como conseqüência disso, apresenta o risco de que ocorra uma grande liberação de carbono, caso se modifiquem certos processos”, afirma o pesquisador da UNAM. “Queremos determinar se as modificações prognosticadas na quantidade de chuva poderiam trazer mudanças nas taxas de captura ou emissões de carbono”, indica e, portanto, no aumento dos gases de efeito estufa.
O Laboratório de Biogeoquímica do Instituto de Ecologia da UNAM trabalha também em outras linhas de pesquisa, como a ecologia da restauração, que definem como “gerar informação básica com fins práticos para a solução de problemas ocasionados por áreas que são abandonadas, isto é, o conhecimento da biologia para implementar ações que conduzam à recuperação dos recursos naturais”.
Impacto das espécies migratórias
Ademais, trabalham no impacto das espécies migratórias sobre ecossistemas nativos. “A rota das espécies está mudando como conseqüência das mudanças que sofrem o clima. Estão bem documentadas mudanças das rotas migratórias, mas não os efeitos que produzem estas espécies uma vez que se alojam temporalmente em ecossistemas nativos que careciam de tais espécies, e isso pode ocasionar efeitos prejudiciais à biodiversidade nativa”, indica.
No âmbito da ecologia do aquecimento global existe outro projeto que tem como fim detectar as conseqüências que trará o aumento na deposição de nitrogênio atmosférico, algo que “está previsto devido ao aumento no uso de fertilizantes e cultivos de leguminosas”, segundo Julio Campo. “Queremos verificar como se verá afetado o funcionamento das florestas tropicais, que concentram o carbono dos ecossistemas terrestres e fazem circular a maior parte do carbono entre a biosfera terrestre e a atmosfera. Nosso interesse é saber se estes aumentos resultarão em mudanças funcionais que possa levar a um aumento das emissões de gases de efeito estufa e a uma mudança nas possibilidade de captura de carbono por parte das florestas”, comenta o cientista, que ofereceu uma conferência na manhã do dia 17 de março aos pesquisadores do Irnasa.