Nutrition Argentina , La Rioja, Tuesday, February 09 of 2010, 13:28

Pesquisadores argentinos idealizam um inovador método para medir o calor nas cidades

Representa a porcentagem de energia solar subtraída do ambiente e a quantidade de calor emitida como calor sensível

INFOUNIVERSIDADES/DICYT Geralmente fala-se em aquecimento global do ponto de vista de seu impacto agropecuário ou econômico. Entretanto, não se costuma tratar de seus efeitos sobre a saúde e a qualidade de vida. Por essa razão, docentes pesquisadores da Universidade Nacional de Cuyo desenvolveram uma metodologia para medir o calor nas cidades. Para tanto utilizaram o conceito de “valor ambiental”, que determina quanto calor irradia os solos, e assim surge a possibilidade de orientar o projeto de cidades mais frescas.

 

Nas cidades, o aumento do cimento sobre espaços verdes já produz o chamado “efeito ilha de calor”, com aumentos de até 10 graus na temperatura. Podemos imaginar, então, os resultados de sua combinação com o aquecimento global. Além disso, existem outras causas que se somam ao “inferno” em que se convertem algumas regiões no verão: a deterioração das árvores de ruas e de espaços públicos, a tendência de cimentar os novos parques e praças, de aumentar a altura dos edifícios e a predisposição a ladrilhar os quintais das residências, entre outras. O resultado é evidente: as pessoas somente podem mitigar esse calor passando de um ambiente refrigerado a outro, com o conseqüente aumento do consumo de uma energia escassa e cada vez mais cara. “Viver enclausurados é uma excelente maneira de arruinar nossa qualidade de vida urbana, que ainda é bastante boa”, indica à InfoUniversidades o engenheiro agrônomo Sergio Carrieri, diretor da pesquisa.

 

Carrieri observa que o aquecimento global já produziu efeitos inéditos em cidades como Mendoza, tradicionalmente desértica: “Em ruas e jardins crescem algumas árvores e arbustos tropicais, onde dez ou vinte anos atrás era impensável. Ou se deterioram as folhas dos rosais sem que se saiba a que peste atribuir a culpa, quando é o resultado do efeito combinado do sol e das maiores temperaturas o responsável pela queima”. Por isso, propõe reverter ou ao menos atenuar essa situação com um “planejamento inteligente” dos espaços abertos, tanto públicos (praças, parques) como privados (jardins, pátios).

 

“A única forma prática conhecida e recomendada por todos os organismos mundiais é interceptar os raios solares com vegetação antes que alcancem superfícies duras e se transformem em calor”, explica Carrieri. Como se sabe, as plantas se comportam como acondicionadoras do ambiente em que se encontram. Recebem a energia solar e através da transpiração dissipam a maior parte do calor, porque o absorvem com a água dos tecidos e o transformam em vapor.

 

Os pesquisadores advertem que se pode saber quanto calor vai produzir um espaço urbano ou quanto vai anular, de acordo com o tipo de vegetação que contenha. Isso é, o segredo é o planejamento para criar ambientes confortáveis, independentemente do estilo adotado.

 

“Ao criar ou modificar um espaço verde, dever-se-ia aplicar uma metodologia de seleção de projetos que garanta um benefício ambiental acima de um valor mínimo preestabelecido”, reflete Carrieri, que com sua equipe criou uma tabela com valores de eficiência ambiental dos distintos solos possivelmente encontrados nas cidades. Esse valor representa a porcentagem da energia solar subtraída do ambiente e a quantidade de calor emitida como calor sensível no verão.

 

Método seguido

 

Para determiná-lo, calcularam balanços calóricos adaptando conceitos físicos sobre termodinâmica e ecofisiológicos, especialmente sobre evapotranspiração. Assim, em sua tabela, a unidade de energia solar recebida ou emitida se mede em Kilocalorias (Kcal) por metro quadrado (1Kcal=1.000 calorias). Por exemplo, uma superfície de grama acobertada por árvores grandes emite 557 Kcal por metro quadrado, enquanto no outro extremo da tabela encontramos asfalto velho que recebe diretamente a luz solar, irradiando 6.400 Kcal por metro quadrado.

 

“É muito evidente que uma superfície gramada e completamente coberta por árvores terá sempre um valor ambiental maior que outras opções - disse Carrieri -. No entanto, por razões de funcionalidade, devem ser combinados diferentes tipos de superfície, para que as proporções entre elas nos ofereçam o verdadeiro valor ambiental de um espaço verde”. Como exemplo, a pesquisa compara duas ruas centrais de Mendoza com uma quadra de distância: Montevideo, completamente arborizada e em bom estado, emite 1.580 Kcal por metro quadrado, enquanto o índice em Rivadavia – com arvoredo deteriorado – é de 4.819 por metro quadrado. Expresso em “eficiência ambiental” (porcentagem de calor que anulam), as cifras são de 80% e 39%, respectivamente.

 

“A arborização de ruas possui como função principal o aumento do conforto humano na cidade. Quanto maior seja a porcentagem de ruas e calçadas sombreadas, maiores serão os benefícios para vizinhos e usuários”, explica Carrieri e aconselha: “Não deveriam ser admitidos projetos ou remodelações de espaços verdes públicos com uma eficiência ambiental inferior a 74%, a fim de compensar o efeito ilha de calor e as conseqüências do aquecimento global”. Desse modo, para o caso das residências, observa que cobrir um pátio cimentado com uma trepadeira pode poupar ao usuário 3.792 Kcal por metro quadrado, “que, do contrário, acabariam aquecendo os espaços internos da casa e seu entorno”, conclui.