Social Sciences Brazil Campinas, São Paulo, Monday, November 10 of 2014, 10:12

Tecnologia social para tratamento da borracha fortalece comunidades locais amazônicas

Comunidades nativas têm acesso à nova técnica que gera produtos artesanais mais resistentes que podem alavancar a economia

Michele Gonçalves/ComCiência/Labjor/DICYT Uma técnica desenvolvida há pouco mais de dez anos está mudando o cotidiano de muitas comunidades locais na Amazônia. Trata-se da tecnologia social dos “encauchados de vegetais da Amazônia”, desenvolvida pelo Pólo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio), Oscip que atualmente detém a patente e permite sua utilização gratuita pelas comunidades interessadas.

 

Através de procedimentos artesanais de tratamento da borracha, comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e seringueiras conseguem produzir utensílios e artesanatos mais resistentes de forma simples, rápida, barata e comunitária. A técnica mescla conhecimentos tradicionais no uso da seringa e avanços científicos no tratamento desse material, junção que propicia maior rendimento, rentabilidade e inclusão para as comunidades artesãs.

 

O procedimento é simples: mistura-se o látex extraído da seringueira e submetido a alta temperatura (processo chamado de pré-vulcanização) à fibras vegetais e uma mistura de água e cinzas. O produto obtido, uma massa polimérica bastante resistente, é aplicado a moldes específicos feitos de madeira, cerâmica ou metal e gera artefatos como porta-trecos, vasos, embalagens, jogos americanos, bolsas, mantas, tapetes e peças maiores que podem virar solados de calçados ou mesmo calçados feitos inteiramente de borracha. Os artefatos são geralmente pigmentados com tonalizantes naturais e podem ainda ser adornados com desenhos durante ou após a finalização do processo.

 

A tecnologia é fruto dos estudos do professor e pesquisador Francisco Samonek, da Universidade Federal do Acre, em conjunto com seringueiros e indígenas da região. Ele explica que a impermeabilização de tecidos com látex é uma tradição antiga, que remonta aos indígenas colombianos. “A seringa sempre foi explorada pelos povos da floresta, que sempre produziram materiais com ela. Não havia, entretanto, tecnologia suficiente para aumentar a durabilidade e diminuir as perdas. Agora, com essa técnica, há a aceitabilidade dos produtos no mercado”, comenta Samonek.

 

O pesquisador defende que a ação constitui-se na transferência de um processo antes apenas industrial para dentro da floresta, numa forma artesanal, e desta, diretamente para o mercado, sem intermediários. Para ele, a incorporação da tecnologia está salvando a borracha da região, trabalhando os produtos locais de maneira justa e competitiva. “É um passado indígena agora reconhecido: uma forma de manter a extração da matéria-prima que trouxe a Amazônia para o cenário brasileiro durante o ciclo da borracha”, comenta o pesquisador.

 

Os produtos, gerados diretamente em sua base produtiva, são comercializados pelas organizações de produtores, o que faz com que a renda permaneça dentro da comunidade durante todo o processo, gerando praticas saudáveis para com o meio ambiente, relações justas de trabalho e apropriação do conhecimento por parte de quem trabalha diretamente com a matéria-prima. A técnica tem ajudado na recuperação econômica de alguns seringais amazônicos, bem como na valorização do trabalho dos seringueiros. Vendendo produtos já manufaturados, a renda adquirida sobe em média dezessete vezes em relação à venda da matéria bruta: de R$ 3,50 o quilo a borracha passa a ser comercializada por R$ 80,00 no produto encauchado.

 

Ademir, indígena kaxinawá da aldeia de Nova Olinda em Feijó, Acre, na qual o projeto acontece desde 2004, diz que o trabalho ajudou a fortalecer a comunidade, revitalizando seus seringais, que antes estavam abandonados, sua história e sua pintura (que antes era feita apenas no corpo, durante os rituais, e agora é também produzida sobre os artefatos de borracha). “A comunidade cresceu e conseguiu gerar sua própria renda. Fortalecemos também outros artesanatos como a cerâmica, para fazer os moldes. Há quinze anos havíamos perdido nossa cultura e o alcoolismo tomava conta da aldeia. Hoje readquirimos nossa autoestima e 79% dos indígenas não bebem mais”, comenta o kaxinawá. José, também kaxinawá de Nova Olinda, complementa: “A seringa hoje me sustenta. Não precisamos mais desflorestar, temos mais riqueza e vivemos mais”.

 

Além da recuperação dos seringais, da pintura e produção de cerâmica, o projeto também propiciou uma mudança no modo de divisão do trabalho nas comunidades. Homens e mulheres passaram a trabalhar juntos em todas as etapas do processo produtivo. Antes, elas trabalhavam nos artesanatos enquanto eles retiravam a seringa.

 

O projeto já recebeu reconhecimento nacional e internacional por suas ações nas comunidades amazônicas e acumula sete premiações, duas patentes já adquiridas, quatro pedidos de patentes em tramitação e o selo de tecnologia social conferido pela Fundação Banco do Brasil para processos produtivos, produtos gerados e metodologia. Hoje, os encauchados abrangem os estados do Acre, Pará, Amazonas e Rondônia. São 48 unidades produtivas já viabilizadas e 1225 postos de trabalho consolidados. Para saber mais, o site do projeto é o http://www.poloprobio.org.br/.