Culture Brazil Campinas, São Paulo, Friday, January 21 of 2011, 16:34
Literatura

Ironia, paródia e riso são convite para desvendar além do discurso

Autora de estudo diz que gênero coloca leitor no limiar entre explícito e implícito, sendo obrigado a desvendar o que trazem as entrelinhas

Carolina Octaviano/ComCiência/Labjor/DICYT - Questionar visões maniqueístas e suspender a censura são algumas das principais características da paródia, do riso e da ironia nos textos, conforme sustenta a tese “A ironia e suas refrações: um estudo sobre a dissonância na paródia e no riso”, defendida por Camila da Silva Alavarce, doutora em Teoria Literária pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Segundo o estudo, essas três modalidades literárias estão presentes nos textos de uma maneira mais impositiva ou liberal, mas nunca estão explícitas.

 

A autora estudou os discursos presentes nas obras O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino, O homem duplicado, de José Saramago e no conto "O duplo", de Fiódor Dostoiévski, com a finalidade de identificar as diferentes vozes dissonantes e o papel do leitor na construção dos sentidos encontrados nos textos. E, a partir desta análise, constatou que essas modalidades convidam o leitor para construir sentidos, instaurando um movimento de reflexão, capaz de ampliar o conhecimento e a percepção crítica. “Acreditamos que a ironia, a paródia e o riso atuam, nos textos literários, na grande maioria de suas ocorrências, com o objetivo de suspender a censura e de burlar as prisões dos discursos monofônicos e consequentemente autoritários. Isso é possível porque as modalidades em questão privilegiam a polifonia e o elemento dissonante, legitimados pelo contraste de ideias, traço comum entre esses três tipos de discurso”, explica ao longo da tese.

 

O estudo reitera ainda que o leitor é o sujeito principal dos textos que contemplam a ironia, o riso e a paródia, pois somente ele pode fazer com esses discursos realmente aconteçam. Para a autora, sem a participação do leitor na construção do sentido, essas categorias não existem. “O receptor dessas modalidades de estudo deve comportar-se como alguém que investiga um caso muito intrigante, repleto de provas controversas, desafios e propostas tentadoras. Ele – o sujeito – deverá sinalizar, com base nos ´fatos´ do texto, a ´verdade´ e a manipulação”, afirma.

 

Deste modo, o leitor se localiza no limiar entre o explícito e o implícito, tendo que desvendar também o que está nas entrelinhas. “De modo semelhante ao que se dá com a literatura, os discursos investigados ao longo da presente pesquisa propiciam ao sujeito – quando descobertos – a experiência do prazer estético e da purificação ou catarse”, aponta. Conforme a pesquisa, o riso, a paródia e a ironia despertam no leitor a vontade e a possibilidade de transcender a realidade e encontrar o imprevisto ou impensado, fazendo com que ele seja estimulado a lançar um olhar diferente para o real e possibilitando que se adquira maior conhecimento.

 

“Essas categorias de linguagem tão complexas e fascinantes facilitam o contato do ser humano consigo mesmo: com seu saber e, ainda, com seu não saber. São discursos que perturbam o sujeito, uma vez que o incitam a lançar um olhar atento sobre si mesmo, em busca de seu repertório”, salienta. Isso ocorre mesmo quando há dificuldades em compreender as ironias e, mesmo que a ironia, a paródia e o riso não surtam o efeito esperado pelo autor, o convite para o desvendar perpetua-se e, com isto, se dá a ampliação da percepção crítica. “Tal projeção não é utópica, uma vez que, tentando desmascarar os discursos marcados pela ironia, paródia ou riso, desmascaramos, ao que parece, a nós mesmos”, conclui.