Health Spain , Valladolid, Wednesday, May 20 of 2015, 12:14
INESPO II

Um dispositivo que combina música, cor e movimento com fins terapêuticos

A doutoranda da Universidade de Valladolid (Espanha) Elena Partesotti desenvolveu um protótipo multidisciplinar denominado E-MOCOMU, cujo objetivo é unificar três dimensões: movimento, som e cor, com fins terapêuticos

Cristina G. Pedraz/DICYT Pode ouvir uma cor? E ver um som? A maioria das pessoas não pode, mas é uma capacidade que têm os ‘sinestetas’; e não é a única. Estima-se que é muito elevado o número de diferentes tipos de sinestesia, ou seja, a qualidade de algumas pessoas para experimentarem sensações num certo sentido quando se estimula outro. Artistas importantes, como o pintor Wassily Kandinsky e o compositor Alexander Scriabin, percebiam esta combinação de perceções sensoriais distintas (no seu caso, a “cromestesia” ou associação de sons com cores). Mas uma pessoa que não é sinesteta pode chegar a experimentar sinestesia?


Essa é uma das ideias básicas de E-MOCOMU (E-MOtion, COlour and Music, “emoção, cor e música”), um protótipo desenvolvido pela doutoranda em Música e Tecnologia da Universidade de Valladolid (UVA) Elena Partesotti. O seu objetivo é explorar o potencial que oferecem as três dimensões de cor, som e movimento para fins terapêuticos, tais como melhorar a comunicação em crianças com transtorno do espectro autista, entre outros.


Contudo, não é a única possibilidade deste dispositivo. Também tem aplicações educacionais e criativas. "E-MOCOMU permite ao utilizador manipular sons, imagens e cores através dos seus movimentos livres no espaço. Isso significa que se você mover um braço no espaço, a esse movimento corresponderiam sons, mas também cores e imagens que poderia ver diante de si num ecrã. Esta tecnologia permite a sua aplicação no campo da reabilitação física, facilitando a realização de exercícios rotineiros, e também no campo psicológico, ajudando ao tratamento de diferentes tipos de transtorno. Além do mais, permite uma primeira abordagem da didática e pedagogia da música, do movimento e do desenvolvimento criativo que, como sabemos, que é chave para a autoexpressão de um indivíduo a nível pessoal e artístico”, explica Partesotti, salientando a importância da expressividade na terapia.


A ideia de desenvolver este protótipo vem da experiência académica e pessoal desta investigadora de origem italiana. Depois de um Mestrado de dois anos em Musicoterapia na Universidade Autónoma de Madrid (Espanha) e de trabalhar em escolas e hospitais públicos, em 2012 ingressou na Universidade de Valladolid (Espanha) para realizar um doutoramento com o apoio da professora Alicia Peñalba e do professor Jônatas Manzolli da Universidade de Campinas (Brasil).


Em sua opinião, ligar o campo criativo e a tecnologia é uma boa fórmula para ajudar as pessoas com problemas psicológicos e comunicativos, além de oferecer uma ferramenta lúdica para muitos. “A musicoterapia proporciona benefícios cientificamente comprovados. Por exemplo, nos últimos anos, vários estudos de neurociência mostraram a conexão e o poder da música na recuperação fisiológica; as correlações neurais promovidas pela música modificam a atividade de uma estrutura cerebral que funciona de forma anormal, o que tem uma relevância direta no tratamento terapêutico de doentes com depressão. Além disso, a música contribui para o fortalecimento do sistema imunológico, o que ajuda a reduzir os fatores que aumentam os processos de doença. Porque não aproveitar, então, a dimensão criativa em uma tecnologia?”


Segundo a investigadora, a importância desta união entre arte e tecnologia é de extrema relevância para o campo clínico-terapêutico. “Na musicoterapia utilizam-se instrumentos tradicionais e funciona muito bem. A tecnologia ainda não está a ser muito usada, mas estamos na era digital e se organizarmos uma sessão de musicoterapia com crianças, por exemplo, todas sabem usá-la, e gostam, porque podem brincar com ela. A tecnologia é um bom apoio e funciona”, afirma.


Desenvolvimento do protótipo


O desenvolvimento do primeiro protótipo de E-MOCOMU foi possível graças a um estágio de Elena Partesotti no Laboratório NICS (‘Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora’), da Universidade de Campinas, coordenado pelo professor e compositor Jônatas Manzolli. Este primeiro protótipo, mais voltado para o ensino de música, foi ampliado e melhorado acrescentando novos recursos graças à colaboração da artista audiovisual Vj Kalma.


O dispositivo baseia-se em Kinect, uma tecnologia comercial que permite ao utilizador controlar e interagir com uma consola sem precisar de contacto físico com um controlador tradicional de videojogos (um comando, joystick, etc.), graças a um sensor que mapeia os movimentos (o que se chama MOCAP o Motion Capture System).


“E-MOCOMU foi concebido como uma tecnologia acessível e de baixo custo que qualquer pessoa poderia ter em casa, já que poderia ser usado para jogar em família com os diferentes programas que criámos para integrar recursos visuais e sonoros ", diz ela.


O sistema está em processo de pedido de patente graças a uma bolsa do programa ‘Prometeo’ para o desenvolvimento de protótipos orientados para o mercado, que convoca anualmente a Fundação Geral da Universidade de Valladolid (FUNGE), o que permite também continuar com o seu desenvolvimento.


"A nossa ideia é torná-lo mais detalhado e em três dimensões, o que levaria a mais possibilidades. Eu gostaria que for mais visual e que qualquer movimento, por menor que for, se tornar num certo som; então, teríamos de desenvolver uma tecnologia ligeiramente mais pormenorizada e rápida para o próprio dispositivo desempenhar todas as tarefas. Para isso, precisaríamos de novos recursos”, conclui a investigadora.