Social Sciences Spain , Salamanca, Wednesday, November 06 of 2013, 10:17

Os elementos que constroem a cultura científica em debate

Primeira jornada do seminário internacional ‘Indicadores de cultura científica e tecnológica’

JPA/DICYT O Instituto de Estudos da Ciência e da Tecnologia (eCyT) da Universidade de Salamanca realizou hoje a primeira jornada do seminário internacional ‘Indicadores de cultura científica e tecnológica’, com a participação de destacados especialistas neste campo e a apresentação de parte de um projeto de pesquisa destinado a analisar diversos elementos sobre a percepção pública da ciência.


Martin Bauer, editor chefe da revista mais importante do mundo neste campo, Public Understanding of Science, e pesquisador da London School of Economics, proferiu a conferencia inaugural, na qual apresentou um estudo sobre a cultura científica na Espanha. Apesar de desenvolver seu trabalho em Londres, dispõe de uma ampla base de dados para comparar a evolução da percepção da ciência em diversos países.

 

Em declarações a Dicyt Bauer se referiu ao projeto de pesquisa liderado por Miguel Ángel Quintanilla, diretor do eCyT, denominado, precisamente, ‘Indicadores de cultura científica e tecnológica’. Apesar de não o conhecer profundamente, afirmar estar muito interessado, porque se trata de uma iniciativa que também estuda a cultura científica a partir de perspectivas tão diferentes como as entrevistas de percepção, a imprensa digital, a Wikipedia e os livros de texto.


No seu ponto de vista, o grande desafio neste campo de pesquisa é construir indicadores fiáveis sobre cultura científica, ainda que os dados manejados forneçam já conclusões relevantes. Por exemplo, que os países em que os cidadãos possuem uma formação científica mais sólida tendem a ser mais críticos e a avaliar cada projeto separadamente, ao invés de ter uma visão ideal da ciência de modo geral, como ocorre com os países com menor cultura científica.

 

Atitude crítica


José Antonio López Cerezo, especialista da Universidade de Oviedo, manifestou-se na mesma linha, falando da importância de combinar o apoio à ciência com a atitude crítica em um sentido construtivo com relação aos riscos ou dilemas que possam ser apresentados pela vanguarda da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico.

 

Destaca-se a inexistência dessa atitude crítica, por exemplo, no campo das entrevistas, que em sua opinião “somente tentam detectar potencialidades, benefícios e promover dados relacionados com aspectos positivos da ciência”. Geralmente, “o problema é o próprio questionário, que apenas possui perguntas relacionadas com os benefícios”.

 

Assim, descartam-se “os espanhóis que sejam críticos leiais ou céticos leais, pessoas inteligentes, urbanas, entre 25 e 45 anos, com alto grau de escolarização, alto nível de conhecimentos científicos, que apoiam decididamente a ciência e são conscientes dos grandes benefícios de seu desenvolvimento, mas ao mesmo tempo são cautelosos e conscientes dos efeitos negativos e dos riscos que ciência pode enfrentar quando não é adequadamente regulada e controlada”.

 

O caso dos 'hackerspaces'

 

Outro participante destacável da primeira jornada, Eduardo Aibar, especialista da Universidade Aberta da Catalunha, mencionou um tipo de participação ativa do público no âmbito da tecnologia: os 'hackerspaces'. “É um fenômeno emergente em muitos países nos últimos anos, são espaços nos quais pessoas que querem manipular tecnologia se reúnem e, através de processos de aprendizagem e do compartilhamento de experiências, fabricam instrumentos para uso próprio ou de qualquer pessoa. É a filosofia do software livre aplicada aos artefatos”, comentou.


Este fenômeno relacionado com a cultura científica e tecnológica “é muito importante”, afirmou Aibar, “porque vivemos um momento em que os dispositivos tecnológicos, principalmente no âmbito da eletrônica, estão cada vez mais fechados em um sentido duplo. Primero, porque são difíceis de abrir fisicamente; enquanto antes um radio podia ser aberto com uma chave de fenda, agora isso pode representar inclusive problemas legais. E segundo, são fechados no sentido de que o software está filtrado através das plataformas das marcas”, por exemplo, os aplicativos de alguns celulares. Assim, “este tipo de espaços tentam recuperar a capacidade cidadã de manipular os artefatos que nos rodeiam”.


No primeiro dia do seminário foram aprestadas duas das quatro partes que compõem o projeto do Instituto eCyT: as entrevistas de percepção, a cargo de Libia Santos, e a análise dos meios digitais, a cargo de Ana Victória Pérez. Amanhã será aprestado o estudo sobre os conteúdos científicos da Wikipedia e dos livros de texto.